quarta-feira, 29 de julho de 2015

Sangue das Feiticeiras - Capítulo 8 - O Mestre do Meu Mestre


ANTES...

Alessa e Niara estavam de pé no telhado do prédio.

Aquele era o edifício mais alto da Tijuca e, assim, Alessa podia praticar com privacidade. Alguns feitiços não eram seguros ou não podiam ser realizados entre quatro paredes, e, ali, sob o céu noturno, ela podia se soltar.

No seu mundo, a liberdade era um bem raro.

Essa situação sempre a fazia rir. Seu pai dizia que os magos e as bruxas praticavam seus feitiços à noite, sob a lua, em meio a bosques e florestas. Protegidos pela natureza e pelos seres da floresta, que, de certa forma, eram seus irmãos.

Talvez isso fosse verdade. Mas ela não era uma bruxa. Não completamente, era? Pisar numa floresta à noite apenas atrairia os inimigos. E Niara ainda não estava pronta. Ainda não.

Uma vez Alessa tentara fazer isso. Tinha vinte e poucos anos e gostava de se arriscar um pouco mais. Ela tinha ido até a floresta da Tijuca numa noite de lua cheia e tentara preparar um ritual. Um ritual simples, uma mera invocação para um amuleto.

A diferença tinha sido inacreditável. Ela tinha sentido sua mente vagar pela mata, sentido as folhas vibrarem com a brisa. O amuleto vibrava dentro do círculo, e ela sentia o fogo vivo que queimava na sua barriga.

Era a comunhão. Tão plena. Tão prazerosa. Quase um êxtase. Ela nunca tinha se sentido assim. Nem quando ia pra cama com os homens que escolhia. A não ser quando estava com Ele.

Ela havia ficado sentada na clareira em posição de lótus por uma eternidade. A luz prateada da mãe lua banhava seu corpo nu e ela sentia a poeira das estrelas entrando em seus pulmões. Sua kundalini queimou e queimou, subindo pela sua coluna.

Sua magia a preenchia, fervendo o sangue em suas veias. Era a hora.

A hora das bruxas.

Então eles vieram. Eles a tinham farejado de longe. E ela escapou por muito pouco.

O resultado estava marcado na sua perna, na forma de uma cicatriz de vinte centímetros. Ela quase não tinha escapado naquela noite. A vida não era fácil quando você era um mestiço.

E as suas antepassadas ainda reclamavam da inquisição.

Então ela havia construído aquele terraço. Não tinha sido tão difícil. Era um amplo espaço aberto de concreto. Ela tinha feito o círculo sagrado em todo o telhado, o que impedia que os inimigos a sentissem. Impedia que o Homem de Terno Riscado a encontrasse também. Para o bem ou para o mal.

Ou para os seus desejos.

E tinha colocado sigilos na porta de acesso. Nisso ela tinha sido brilhante, era obrigada a reconhecer. Todo aquele que se aproximasse da porta sem a chave mágica esquecia imediatamente o que estava indo fazer ali. Até agora, nenhuma tinha falhado.

E assim ela podia treinar. E hoje a noite ela tinha ensinado a chave para Niara. Afinal, se a menina seria sua discípula, era hora de aprender alguns segredos.

A menina estava de pé na amurada, olhando a cidade. Seu olhar parecia perdido no horizonte.

-O que foi?

-Essa cidade é tão grande...

Alessa ficou parada ao lado dela e acendeu um cigarro. A menina já estava com ela a duas semanas. Parecia recuperada, embora fosse possível perceber que ainda estava assustada, e embora acordasse gritando algumas noites.

Mas ela parecia recuperada. E não havia mais tempo. Niara precisava ser treinada, a menos que quisesse ficar trancada no apartamento para sempre.

-É uma cidade enorme, Niara. E cada esquina dela quer te matar. Por isso hoje eu vou começar o seu treinamento. Estudar durante o dia. Praticar durante a noite.

A menina a encarou com seus belos olhos, em silêncio.

-Sente-se.

As duas se sentaram no chão, em silêncio, encarando uma a outra. O vento noturno soprava os longos cabelos de Alessa para o lado, mas ela não parecia se importar.

-Escute bem, Niara, porque eu não vou repetir. Hoje eu vou aceita-la como minha discípula. Você sabe o que isso significa?

Silêncio.

-Já é um bom começo. Sempre que você não souber algo, admita, nem que seja ficando em silêncio. Você será minha discípula e eu serei a sua mestra. Você me obedecerá e eu lhe passarei devoirs. Você aprenderá e eu ensinarei. Mas antes, precisamos de sangue.

Os olhos da menina se arregalaram.

-Precisamos de sangue, Niara. E precisamos pra já. A Lua está no ponto certo e precisamos realizar o ritual.

-O meu ou o seu? – perguntou a menina, trêmula.

Alessa deu a última tragada no cigarro. Era hora.

-Do seu, do meu e do meu mestre. Quando um mestre está morto, o discípulo se torna o mestre. Mas o meu mestre está vivo. E precisamos da benção dele. Mas ele é um homem perigoso, e eu preciso ensiná-la a se defender antes de o encontrarmos. E só temos dois dias.

A menina pareceu confusa.

-Mas... eu pensei que seu pai tinha sido o seu mestre. Você me falou que ele tinha morrido.

Alessa apagou o cigarro no chão. Por um instante sentiu o peso da sua idade.

-Meu pai está morto, Niara, mas ele não era o meu mestre.

-Não? Então quem era?

Ela se levantou e esticou a mão para e menina.

-Levante-se, está na hora de visitarmos o Homem de Terno Riscado.

Sangue das Feiticeiras - Capítulo 7 - The Long Way Back



Ela não tinha dito nenhuma palavra.

Gabriele a olhava com seu único olho bom. Estava sentada numa cadeira de madeira a menos de dois metros dela, e ainda não acreditava.

Seu irmão, Gabriel, estava de pé do outro lado do quarto, encostado na parede. Também estava em silêncio. Sua roupa estava suja de lama e ele estava molhado. Parecia assustado.

Mas ela não tinha dito nenhuma palavra.

Gabriele puxou a cadeira um pouco pra frente e se aproximou da cama. Ela podia sentir o cheiro da amiga. Gabi usava sempre o mesmo perfume, mas havia algo mais. O suor, o cabelo, o medo.

Ela fechou os olhos por alguns instantes, e percebeu que podia ouvir os batimentos dos corações dos dois. E havia um ruído também. Um som contínuo, como se fosse um rio enorme que corria sem parar. Mas ela não sabia o que era.

-Nat... – disse Gabriele, e a sua voz soou doce e reconfortante depois de tanto tempo – você tá me ouvindo?

Natasha não respondeu. Não conseguia responder. Estava sentada na cama, encolhida, os braços abraçando os joelhos com força. E tremia.

Ela nunca tinha sentido tanto frio. Não era uma sensação térmica em si, mas algo mais profundo. Quase como um vazio. E ela podia senti-lo nos ossos.

Ela passou a mão nos cabelos e sentiu a lama. Estava imunda. Coberta de lama e folhas dos pés à cabeça. Por que não tinha tomado um banho? Quanto tempo fazia que tinha acordado? Uma hora? Duas? Dois dias?

-Nat... – continuou Gabriele – Nat. Fala alguma coisa.

O que ela poderia dizer? Como poderia explicar?

Quem acreditaria no que ela tinha pra contar?

-Gabi – a voz de Gabriel soou como uma explosão e fez seus ouvidos doerem – ela tá tremendo de frio. Por que você não dá um banho nela? Coloca ela na banheira e liga a água quente.

A menina loira concordou com um movimento da cabeça. Isso era tão característico dela, pensou Nat. E, por um momento, achou que poderia sorrir.

Mas não.

Ela pôde ouvir o som de água no banheiro, e mesmo do quarto, foi capaz de sentir o calor. Era reconfortante. Quase tanto quanto a voz da amiga.

Gabriel se aproximou dela e a ergueu no ar. Seus braços eram fortes e ela sentiu seus músculos se retesarem ao contato dos dois corpos. Ela se lembrava bem do cheiro dele. Lembrava do gosto do seu suor e da sua saliva. E sentiu que não eram apenas os músculos dele que se retesavam ao contato com ela.

Ele a carregou com facilidade até o banheiro e a colocou sentada no vaso.

-Gabi, dá um banho nela – disse, e saiu silenciosamente do banheiro, fechando a porta.

As duas ficaram paradas em silêncio, e então, com delicadeza, Gabriele começou a tirar a roupa da amiga. Natasha permaneceu parada, sem oferecer resistência. Estava cansada, cansada demais.

Gabriele despiu a amiga e a encaminhou até a banheira quente, colocando-a sentada. O corpo de Nat continuava exatamente como ela se lembrava. A pele morena e magra. Os lindos olhos verdes. Natasha nunca tinha sido rica em curvas, mas Gabriele nunca tinha conseguido deixar olhar como seu corpo era desenhado.

Lindo – ela pensou – lindo como sempre.

Ela começou a esfregar o corpo da amiga com uma esponja, limpando toda a lama. Nat permanecia impassível, e Gabriele se lembrou de uma noite, anos atrás, quando suas mãos percorreram aquele corpo pela primeira vez, mas tentou afastar a lembrança. Não era hora pra isso.

A menina não pareceu notar, e permaneceu quieta, estática, enquanto se deixava ensaboar. No fundo, Nat também se lembrava daquela noite, mas estava exausta demais pra falar qualquer coisa.

A subida tinha sido longa e lenta. Ela se lembrava de cada passo em uma longa escada de pedra negra em espiral. Subindo, sempre subindo. Ela subia sem olhar pra baixo. De alguma forma, ela sabia que havia algo que subia atrás dela. Não sabia se a coisa a seguia ou a perseguia.

Mas podia ouvir a sua respiração. O cheiro do seu hálito. A coisa subia, e estava faminta.

E ela subiu, sem olhar pra trás.

A escada era longa, e muitas vezes ela achou que não havia fim. Ela estava no inferno, e subir as escadarias era o seu castigo. Eternamente.

Ela sentiu fome e sede. E dores nas pernas devido ao esforço. E cãibras. Mas nunca parou. Por pior que fossem as dores, ela tinha certeza que o que estava atrás dela era muito pior.

Então a escadaria terminou. Quando seus pés descalços sangravam e estouravam em bolhas, ela finalmente chegou ao fim. Não havia mais nenhum degrau, e sim uma montanha.

Ela hesitou por um instante, mas sentiu a coisa nos seus calcanhares. Negra e faminta. Cheia de desejo e cheia de ódio.

E ela escalou, pedra por pedra. Até seus dedos sangrarem e os pedaços das suas unhas ficarem encravadas na rocha cinza. Subiu e subiu, com a coisa em seu encalço. Não havia nada acima, e ela tinha certeza que não havia nada abaixo.

Ela tinha achado que a escadaria era longa, mas a escalada foi muito maior. Todas as vezes que seus músculos falharam, ela sentiu a coisa resvalar os seus pés, e, tomada pelo pânico, ela prosseguiu.

E subiu até que, subitamente, ouviu vozes. Pareciam conhecidas, mas distantes. Vozes que ela não ouvia há muito tempo.

Ela continuou, até que, com um enorme clarão, ela viu uma saída.

Ela esticou o braço e sentiu punhos firmes tocarem seus pulsos. E foi erguida com força.

E então ela estava ali. Sentada na banheira. Tremendo de frio mesmo sob a água quente.

Seus amigos tinham feito muitas perguntas, mas ela não havia respondido nenhuma.

Não tinha coragem de dizer nada. Porque ela sabia. E não havia como explicar. Era apenas uma sensação, no fundo dos seus olhos.

Quando saiu, a coisa saiu com ela.

Sangue das Feiticeiras - Capítulo 6 - Por quem os corações batem




ANTES:

Saiba, minha filha, que a primeira regra que você deve aprender, é a tríade. Toda as coisas vêm em três. O pai, o filho e o espírito santo. As três faces da lua. As três senhoras do destino. Tudo, minha filha, segue essa regra. E essa regra provém dela, nossa mãe, Hecate. Aquela que nos abençoa quando o sol se vai.

O número três tem poder, minha filha, e você o verá diversas vezes. Mas compreenda, Alessa, que tudo tem uma face na luz e uma nas trevas. E que o três pode ser um número abençoado ou maldito, pois a Senhora é caprichosa, e tanto se apresenta como as Bondosas, quanto como as Fúrias.

E entenda, minha filha, que um dia você caminhará sob ela, e você será uma tríade. E juntas vocês andarão sob a estrada da Lua. Você e suas companheiras. E serão uma só.

HOJE:

O enterro tinha sido discreto. As poucas pessoas da família que foram convidadas não tinham comparecido.

Apenas a mãe, o pai e os dois irmãos. E um padre. Ninguém mais.

Eles tinham tentado ir. Mas a família tinha vetado. É claro. Quem não faria isso?

O rapaz se sentou sobre um túmulo de mármore. A pedra era gelada, mas era melhor do que ficar em pé. Ele se chamava Gabriel – como o arcanjo – e tinha apenas dezenove anos.

A chuva tinha parado. O cemitério tinha ficado encharcado, e algumas partes estavam cobertas de lama.

-Achei – chamou a voz da menina, vinda de trás de um mausoléu – é essa aqui.

O rapaz se levantou e caminhou até a menina. Seus passos eram lentos e hesitantes. Ele não queria estar ali.

Pela primeira vez naquela noite, ele percebeu que estava frio, e, fechando o casaco, olhou para a lua crescente no céu.

A menina estava parada de pé. Tinha mais ou menos a mesma idade dele. Era loura, muito loura, com o cabelo comprido e liso preso em uma trança. Gabriel a achava muito magra, mas sua irmã nunca concordava com ele.

-Gabriele – ele chamou, hesitante – tem certeza que quer fazer isso?

A menina se virou e o encarou com seus enormes olhos azuis. Os olhos da irmã sempre fizeram com que Gabriel sentisse um frio na espinha, mas agora, com a grande cicatriz que ia do olho esquerdo até o pescoço, a sensação era muito pior.

-A gente não precisa fazer isso, Gabi – ele disse – já faz tanto tempo…

-Seis meses e oito dias – a menina respondeu, com uma voz afiada e fria ao mesmo tempo – ou sou só eu que estou contando?

O rapaz balançou a cabeça em sinal negativo. Estava com medo. E cansado. E frustrado.

Sentia falta dela.

-Escute, Gabriel – continuou a irmã – eu vou ficar aqui. Você pode ir embora, mas eu vou ficar aqui e conversar com ela.

Novamente aquela história.

-Gabi, você não precisa ficar aqui pra ela ouvir o que você tem a dizer. Ela não está aí. Isso é só uma casca vazia…

-Não me interessa – disse a menina, a voz embargada pelas lágrimas – eu preciso conversar com ela. Tenho que explicar. Pedir desculpas…

Gabriel suspirou fundo. No íntimo, entendia a irmã.

-Tá. Tudo bem. Eu vou ficar aqui. Vou esperar. Mas não demora.

A menina loira fez um sinal positivo com a cabeça e se virou pra lápide.

Era um túmulo de mármore escuro. Liso. Em cima havia apenas uma foto dela, sorrindo, jovial, imortalizada aos vinte anos. Subitamente, Gabriela se recordou da tarde em que tinham tirado aquela foto.

Tinham viajado pra Búzios. Estavam de férias e tinham viajado por uma semana. A faculdade tinha começado naquele ano, e fazia tempo que não faziam nada juntos. Era bom estarem reunidos assim. Como nos “velhos tempos”, ela tinha dito.

Como podem haver velhos tempos, quando você tem apenas vinte anos?

Mas ela estava lá, na foto, seu lindo sorriso branco emoldurado pela pele bronzeada de sol. Gabriele já tinha se esquecido como os olhos dela eram de um tom verde tão bonito.

-Nat… oi… - ela disse, sua voz não mais do que um sussurro – sou eu, a Gabi. Eu vim te visitar.

Silêncio.

-Eu queria ter vindo antes. Queria ter vindo no enterro. Mas seus pais não deixaram. Eles… eles acham que a culpa foi nossa. Minha e do meu irmão. Ele também tá ali, mas acho… acho que não quer conversar. Você sabe como ele é.

Silêncio. Ela teve certeza que seu irmão podia ouvir seus soluços de onde estava.

-Merda, Nat. Por que você fez isso? Cara, por quê? Por que você foi aceitar encher a cara com a gente? Você sempre foi a mais certinha Nat. Por que você foi me dar ouvidos, caralho? Estava tudo tão bem.

Uma nuvem silenciosa passou, cobrindo a lua. A menina se sentiu idiota. Afinal, o que estava fazendo ali? Aquilo era só um túmulo.

-Porra. A gente tava tão bem. Tinha a faculdade. As coisas estavam bem, né? Por que a gente encheu tanto a cara? Por que isso Nat? Olha no que deu… eu não enxergo mais desse olho. Os médicos disseram que não tem mais jeito. O Gabriel tá fazendo tratamento até hoje… cara, e você… você … porra.

Estava escuro. A nuvem continuava cobrindo a lua.

Longe, o rapaz continuava sentado na lápide. Não tinha chorado mais. Estava de saco cheio de ficar chorando. Era uma dor horrível. Não por causa da batida do carro, mas a falta que Natasha fazia.

Ele mal se lembrava do acidente. Os três tinham bebido a noite toda. Muito mais do que estavam acostumados. Ele tinha cheirado um pouco também. Todos eles tinham. Ele não costumava fazer isso, mas Nat tinha trazido e… e eram as últimas férias que teriam juntos antes de… bom, antes de virarem adultos.

Depois de rodarem a cidade inteira até quase o nascer do sol, tinham pego o carro e Nat tinha acelerado pela estrada. Ela tinha gritado alguma coisa. Alguma coisa sobre alcançar o sol…

E então ele acordou dois dias depois num quarto de hospital. Um braço e algumas costelas quebradas. Sua irmã cega de um olho e com alguns ossos partidos. E Nat estava sendo enterrada.

E nos últimos seis meses, nada mais tinha sido como antes. Nada tinha sido como nos velhos tempos.

Ele olhou pro céu. Não havia mais lua. Não era uma nuvem. Não era lua nova. Apenas não havia mais lua.

Gabriele tinha parado de chorar. Assim como o irmão, ela estava cansada.

No fundo, sabia que nunca se livraria daquele vazio. Ela sabia que nunca mais a veria. Que nunca mais ouviria sua voz. Nat tinha partido. Para o céu, para o paraíso, ou pra onde quer que as pessoas vão quando morrem em um acidente de carro.

Estava tão frio ali…

Então Gabriele ouviu.

No início era o silêncio. E apenas o silêncio. Mas então ela ouviu o som. Pareceu tão alto… como se algo a tivesse acertado no ouvido.

Uma batida. Forte e sonora.

Ela pôde ouvir a voz do irmão, que chamava o seu nome. Ela não soube ao certo quando começou a cavar, mas quando Gabriel a alcançou, seus dedos sujos de lama já tinham tocado a madeira do caixão.

Ela sentiu as mão fortes do irmão, que a segurava, aos berros.

-Você não tá entendendo… ela tá viva. Eu ouvi um barulho. Ela tá lá dentro. Tá viva.

O irmão a puxou e a segurou. Os dois caíram ajoelhados na lama, sob a fina chuva que recomeçava.

Gabriela soluçava. Ele somente podia abraçá-la.

-Ela tá viva… eu ouvi… eu juro…

-Shhhh… calma. É a sua imaginação.

-Não… é verdade… eu juro…

-Gabi… eu….

Silêncio.

A noite estava escura como o breu, quando o rapaz se levantou e puxou a irmã. A chuva tinha aumentado, mas ele não ouvia o som da água sobre as lápides.

Em meio ao cemitério, ele puxou Gabriele de volta ao túmulo. E, juntos, se ajoelharam.

Ali, juntos, ele fitou os grandes olhos azuis da irmã, e com um sussurro, disse:

-Eu também ouvi. Ela está viva. Me ajude a cavar.

Sangue das Feiticeiras - Capítulo 5 - Visitas Noturnas



O homem de terno riscado acordou no instante exato em que o sol se pôs.

Não que ele estivesse vendo isso. O quarto onde dormia era totalmente lacrado, sem nenhuma espécie de iluminação.

Mas depois de tantos anos, a prática tinha levado à perfeição.

Ele ergueu lentamente o corpo totalmente nu – todos os seus movimentos eram lentos – e caminhou na escuridão até a pesada porta de metal do quarto, empurrando-a sem nenhuma dificuldade, apesar do peso e da espessura do aço.

Depois de subir a escada em caracol, ele se encontrou na sala de estar da sua casa. Ao contrário do que se poderia imaginar, o homem de terno riscado não vivia em mansões suntuosas – como os escritores costumam afirmar quando escrevem sobre a sua espécie – nem possuía nenhum tipo de proteção ou segurança no lugar onde morava.

Para quê? O que poderia ameaça-lo?

Ele seguiu até um dos quartos e escolheu um dos ternos. Todos idênticos. Todos muito bem cortados. Ele tinha muitos. Ternos demais.

Do lado de fora, a lua brilhava no céu. Os dias do homem de terno riscado sempre eram noites.

Ele saiu pela varanda da casa e ficou observando a rua. Sua casa ficava em Santa Tereza, e da grande varanda ele podia observar todo o movimento no centro da cidade.

As pessoas iam e vinham, vivendo suas vidas. Ele as olhava e via suas histórias. Eram tantas.

Observando as pessoas, ele percebeu o quanto estava cansado. Por um momento, a vida delas perdeu o fascínio, e ele se sentiu... velho.

Então essa era a sensação.

Muitos e muitos séculos atrás, o homem de terno riscado tinha visto o primeiro de sua espécie cometer suicídio.

Na época ele tinha ficado assustado. É claro que tinha visto muitos humanos abandonarem a vida por conta própria. Mas eles tinham uma vida curta, incompleta. A sua espécie, contudo...

Ao longo dos anos, ele soube de muitos outros. Muitos dos seus irmãos se cansavam e, entediados, partiam para o que quer que viesse depois. Suas vidas eternas desprovidas de sentido terminadas em instantes, como uma vela que se apaga.

Isso seria algo impensável antes da invasão.

Por quê eles faziam isso?

Em todos os seus anos de existência, o homem de terno riscado nunca tinha sentido o vazio que seus irmãos e irmãs descreviam. Sempre havia algo a fazer. Guerras a travar. Planos a elaborar. Ele tinha tempo. Todo o tempo do mundo.

Até aquela noite. Trinta anos atrás. Quando ele tinha sentido o vazio pela primeira vez. A noite em que ele se foi.

Ele olhou novamente o céu. As estrelas brilhavam e ele tinha certeza que não choveria mais. Não naquela noite.

Ele suspirou fundo, sentindo os odores da cidade. Sua cidade. Seu mundo.

E então ele sentiu o cheiro dela. Tão forte que, por um instante, teve certeza que ela estava ali, ao seu lado.

Mas isso seria impossível. Fazia dias que ela estava escondida. Inalcançável. Trancada atrás dos seus feitiços e sigilos, em seu local de poder. Invisível aos olhos dele.

Então por que ela estaria ali? Por que se arriscaria a sair de casa? Era um momento ruim, ambos sabiam. Uma época ruim para os mestiços.

Então ele a viu.

Ela estava parada, de pé, do outro lado da rua. Seus longos cabelos castanho-avermelhados estavam presos em uma grande trança jogada por cima do ombro. Ela vestia calças jeans e uma camisa branca amarrotada, e um casaco cinza por cima.

Ele não pôde deixar de observar o desenho do seu corpo. O rosto parecia cansado – como sempre – mas seus olhos esverdeados continuavam bonitos e brilhantes, e o seu nariz, um pouco grande a aquilino sempre passavam uma sensação de seriedade e força.

Ela não sorria. Ela raramente sorria.

Ele focou seu olhar no corpo, ainda belo e com várias curvas por debaixo da roupa, sentindo um arrepio de prazer ao ver que os pelos da nuca dela estavam arrepiados com o seu olhar.

O que havia em Alessa que despertava seu interesse? Nenhum outro humano – homem ou mulher – jamais havia atraído sua atenção, mas havia algo naquela mulher que o atraía. Desde sempre.

Talvez fosse o seu cheiro.

Ele se aproximou do portão e abriu a antiga grade de ferro. Do outro lado da rua, ela acendeu um cigarro.

-Olá, minha fada – ele disse com sua voz, que mais parecia um sussurro – essa é uma grata surpresa.

Um ser humano inferior não teria resistido à sua voz. Mas Alessa estava longe de ser uma mulher comum.

Mas havia algo errado.

Era o seu olhar.

-Aconteceu alguma coisa?

Tarde demais, o homem de terno riscado percebeu que não estavam sozinhos.

Alessa deu mais uma longa tragada no cigarro e soltou um anel de fumaça. Então, com um sussurro, disse:

-Niara...

Uma mulher. Não, uma menina, saiu de trás de um carro. Era magra e pequena. E sua pele era negra. Tão negra quanto as sombras.

E seus olhos eram dourados.

A menina parou à sua frente. Seu olhar vidrado. Ele teve a impressão que ela rosnava. Como um animal.

Alessa sorriu, e, na rua escura, seus olhos brilharam enquanto ela sussurrava:

-...pega.

Sangue das Feiticeiras - Capítulo 4 - Aqueles que andam conosco



ANTES

Compreenda, minha filha, que nós somos poucos. Éramos muitos quando fomos criados, mas poucos de nós sobreviveram ao tempo. O tempo sempre está contra nós. Ele é o nosso grilhão, colocado pelos Criadores. E existem os outros, que não somos nós e não são os Criadores. E eles são os que andam no escuro. Eles são o Inimigo.

HOJE

Alessa estava cansada. Muito, muito cansada. Fazia quase meia hora que estava sentada de frente para a menina, em silêncio.

Quando ela ia parar de chorar, pelo amor de deus?

Ela acendeu um cigarro – o primeiro do dia – e deu uma tragada longa e barulhenta. Estava na hora de acabar com aquilo. De uma vez por todas.

Ela simplesmente não tinha mais tempo. Nenhuma delas tinha.

-Niara.

A menina pareceu não ouvir. Continuava sentada no chão, encolhida. Não tinha parado de tremer. Não tinha parado de soluçar.

-Niara.

Sem resposta. Apenas o silêncio do apartamento.

-Chega.

A menina instantaneamente parou de chorar, quase engasgando, e a olhou, surpresa.

Não havia como ignorar aquilo. Não ainda.

Alessa não costumava nem gostava de fazer isso. Forçar a sua vontade sobre outra pessoa era algo necessário, algumas vezes, mas nada agradável. A mente humana não aceitava ser compartilhada, e não era agradável pra nenhuma das duas pessoas. Nunca.

-Por que… por que os seus olhos são amarelos?

“Sério?”, pensou Alessa. “Tanta coisa pra ela me perguntar e ela quer saber por que meus olhos são dessa cor”?

Alessa suspirou.

-Eles não são amarelos. Só ficam assim quando eu uso meus poderes. Os seus também ficam.

-Poderes?

-Pelo amor de deus, menina? Será que você não entendeu nada? Estamos aqui faz dois dias. Eu estou cansada disso. Você não sabe que é uma bruxa? Não deu pra perceber?

Os olhos de Niara se arregalaram. “Finalmente”, pensou Alessa, “consegui a atenção dela”.

E sem nenhum truque.

-Preste atenção, Niara. Levante do chão e sente aqui comigo. Nós temos que conversar.

Em silêncio, Niara se levantou e se sentou na cadeira, bem na frente de Alessa.

-Olhe pra mim.

A menina olhou, obediente. Tinha olhos muito bonitos.

-Niara, eu não sei o que levou você e a sua família a sair do seu País, mas você não está segura aqui. Você não sabe o que é, não é? Seus pais nunca contaram nada?

A menina fez que não com a cabeça.

-Eu não conheci meus pais. Eles morreram um pouco depois que eu nasci. Eu fui criada pelos meus tios.

Era a maior frase que a menina tinha formulado desde que chegara ali. Já era um avanço.

-Eram eles no contêiner?

Os olhos da menina se encheram de lágrimas, mas ela conseguiu se segurar, e balançou a cabeça.

-Entendi. Sinto muito por isso.

O silêncio pairou na sala por alguns instantes. Até que foi quebrado por uma ambulância que passava na rua.

Tinha começado a chover.

-Olha, o que eu vou te contar pode parecer estranho. Mas não tem um jeito simples de explicar, sabe?

-Que eu sou uma bruxa?

-É. Uma bruxa. Uma feiticeira. Qualquer nome que você queira dar. Algumas pessoas nos chamam de “mestiços”.

-Por quê?

Alessa deu outra tragada no cigarro.

-Porque não somos totalmente bruxas. O sangue delas corre nas nossas veias. Mas um dos nossos pais era humano. No meu caso, a minha mãe.

A menina tinha ouvido em silêncio, mas Alessa conseguia sentir que ela tinha perguntas. Muitas e muitas perguntas.

-Olha, isso tem um lado bom e um lado ruim. O lado bom é que nós podemos usar esse poder, sabe. Canalizar através do nosso corpo. Podemos fazer coisas. Muitas coisas, mas isso requer treino, Niara. Muito treino.

-Eu vou… poder fazer magia?

Alessa tragou novamente o cigarro, e se lembrou de suas próprias perguntas, trinta anos atrás.

Tinha sido uma longa jornada.

E essa era sempre a primeira pergunta, a que levava ao primeiro passo. A que levava ao labirinto, e, muitas vezes, ao poço.

-Chame assim, se quiser. “Magia” é um nome tão bom quanto qualquer outro. Alguns preferem chamar de “a grande arte”, ou “a arte sutil”, ou apenas de “arte”. Outros chamas de “o poder”. Pra mim, é “magia”, pura e simplesmente. É uma bênção. E é uma maldição. Mas não tem como escapar dela. Está no nosso sangue.

Outra tragada.

-Algumas vezes você pode sentir ela fervilhando no seu sangue. Ela pode adormecer, pode se silenciar, mas está lá, esperando.

Niara ficou em silêncio por um longo tempo. Alessa sentia o cérebro da menina trabalhar. “Melhor assim”, pensou, “as perguntas criam o interesse nas respostas”.

-Foi isso que você fez? Magia? Foi assim que você me encontrou?

Ela fez um sinal positivo com a cabeça.

-Mas e aquelas coisas? Aquelas que estavam do lado de fora?

Alessa suspirou e tragou mais uma vez o cigarro. Era hora de contar. A hora das bruxas.

Antes que fosse tarde e ela descobrisse por si só.

-Aquilo é o lado ruim.

Sangue das Feiticeiras - Capítulo 3 - Ferramentas



ANTES:

-Entenda minha filha, de onde viemos. É preciso que você compreenda. Houve um tempo, antes do tempo. Só havia a escuridão. E naquela época, havia apenas os filhos das trevas. E, naquele tempo, os esquecidos precisaram de ferramentas...

HOJE:

Dois dias haviam se passado.

Alessa estava sentada no parapeito da janela. Do décimo andar ela podia ver toda a Tijuca iluminada.

Ela não tinha saído de casa nesses dois dias. De certa forma, foram duas noites tranquilas.

Mas eles estavam lá embaixo, em algum lugar. Os esquecidos.

Ali era seu lar. Seu local de poder. Em sua casa, não havia risco. Nem pra ela, nem pra Niara.

Pelo menos por enquanto.

Ela olhou para o céu, e a lua continuava cheia. Tinha certeza que o Homem de Terno Riscado a estava procurando. Quase podia sentir o seu pensamento.

Melhor assim. Enquanto estivesse focado nela, Niara estava a salvo.

A porta do quarto se abriu e a menina apareceu. Parecia incrível, mas ela tinha recuperado um pouco do peso nesses dois dias. Já não parecia um cadáver.

-Bom dia, bela adormecida – disse, sorrindo para Niara – achei que você não ia mais levantar. Quer comer alguma coisa?

A menina fez um gesto positivo com a cabeça.

Alessa preparou uma refeição para as duas e se sentou com uma xícara de café, olhando fixamente para a menina que comia, dessa vez com mais calma.

-E então? Conseguiu descansar um pouco?

Silêncio.

-Olha, Niara, eu sei o que você passou com a sua família. Sei que você está traumatizada ou alguma coisa desse tipo, mas nós temos que conversar. Você tem que começar a falar comigo.

Silêncio.

Alessa suspirou, exausta. Por quanto tempo aguentaria isso?

-Bom, se você não quer falar, eu não vou poder te ajudar – disse, enquanto se levantava e ia até a pia, ficando de costas para Niara.

-Eu só quero que você entenda...

-Quem são eles?

A voz era forte e grave, embora parecesse um pouco assustada. E o sotaque pegou Alessa desprevenida. Era estranho. E belo.

Então ela já sabia.

-Eles quem? – perguntou, disfarçando.

-Quando eu estava no contêiner. Depois que paramos. Eles estavam do lado de fora. Ficavam batendo na porta. Queriam entrar.

Alessa permaneceu em silêncio por alguns instantes.

-Não eram os homens do galpão?

A menina a encarou. Seu olhar dizia claramente que não aceitaria ser tratada como uma idiota.

-Niara...

-Eles bateram e bateram. E arranharam e gritaram. E me chamavam. Me chamavam pelo meu nome. Me diziam para sair. Para sair e...

-Para sair e brincar.

Os olhos das meninas se arregalaram e ela soltou o a xícara, trêmula.

-Eles sussurraram o seu nome. E cantavam cantigas de roda.

Niara se levantou da cadeira, em pânico. Sem tirar os olhos de Alessa, a menina começou a se afastar.

Alessa começou a se aproximar, calmamente,

-E prometeram presentes. E choraram e gemeram quando você não respondeu.

A lâmpada da cozinha piscou. E de novo. E de novo.

-Como você sabe? Quem é você? – gritou Niara, com as costas na parede, sem conseguir parar de olhar para Alessa – você é um deles?

Alessa se aproximou ainda mais da menina e, se abaixando lentamente, a olhou nos olhos.

Com um pequeno estalo, a lâmpada se apagou por completo.

No escuro, os olhos de ambas brilhavam, dourados.

-Eu não sou um deles, Niara.

A menina parou de gritar, perdida nos olhos dourados de Alessa, ofegante.

-Nós somos.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Sangue das Feiticeiras - Capítulo 2 - Presentes




ANTES:

A grande tela de TV se ligou, iluminando a sala escura. Com o leve apertar de um botão, a fita dentro do videocassete começou a girar, e, depois de alguns instantes, Alessa viu o rosto envelhecido de seu pai na tela.

Parecia um pouco mais jovem do que ela se lembrava, mas, com certeza já tinha passado dos cinquenta anos. Os cabelos já estavam um pouco grisalhos e os olhos escuros pareciam um pouco cansados.

Ele demorou um pouco pra falar, como se quisesse ter certeza de que estava gravando, e então, com a voz rouca que Alessa conhecia bem, ele começou a falar.

-Alessa, minha filha, se você está vendo essa gravação, eu não estou mais com você. Posso ter sido morto, levado embora ou talvez alguma coisa ainda pior. Mas não se preocupe, eu vivi bem e longamente. Não tenho arrependimentos.

O rosto na tela pareceu ficar um pouco amargo, e depois de respirar fundo, recomeçou.

-Não. Isso é uma besteira, filha. Eu me arrependo de muitas coisas que fiz. Gostaria de ter ficado mais com você. E com a sua mãe. Eu passei muito tempo fora e mais tempo ainda preocupado com a minha própria vida, e quase não dei atenção para você, minha única filha em todos esses anos.

-Alessa, o que passou, passou, mas eu posso tentar compensar um pouco, filha. Tem muita coisa que você não sabe. Não sabe sobre mim, sobre você e nem sobre o mundo em que vivemos. E eu espero te ajudar a compreender isso. Espero que você esteja me escutando, e que não esteja com raiva de mim. Isso é o que eu posso deixar pra você, filha. Minha herança. Meu legado.

Silêncio.

-Nós, filha. Eu e você, somos diferentes. Diferentes da maioria das pessoas. Você já deve ter percebido isso a essa altura, não é? Deve ter percebido os dons que possui. Os poderes que passei para você através do meu sangue. Sua mãe deve ter te contado. Eu espero que ela tenha te contado, Alessa.

-Alessa, você é como eu. Não exatamente como eu, mas muito parecida, filha. Nós descendemos de uma longa linhagem que vêm de uma época muito, muito longínqua. Já fomos chamados por diversos nomes, mas hoje, somos conhecidos como feiticeiros. Eu sei que você deve estar achando que isso é uma loucura, mas é verdade. Nós dois podemos controlar uma força muito especial, que as pessoas chamam de “magia”, mas isso requer muito treino. A magia é uma coisa muito, muito perigosa.

Silêncio. Apenas o ruído da fita na escuridão.

-E é por isso que estou deixando isso pra você, filha. A minha biblioteca. Todos os meus livros. Tudo que sei. Tudo que aprendi. Tudo. Aqui você poderá aprender sobre o nosso mundo, sobre a magia, sobre o inimigo. E estou deixando essa fita. Essa e muitas outras. Eu vou tentar explicar como tudo funciona, e talvez desse modo eu compense um pouco o fato de não estar aí com você.

-Eu sinto muito Alessa. Mas se tudo tiver dado certo você está recebendo essa mensagem hoje, no seu aniversário de dezoito anos. É a idade mais segura pra você. Tenho certeza que agora você deve ser uma linda mulher e que tem maturidade o suficiente para compreender tudo isso, e não odiar seu velho pai. Lembre-se que eu te amo.

O silêncio caiu novamente na sala, enquanto a fita parava. O ruído do videocassete parou, e com um estalo, o aparelho se desligou.

Alessa se sentou no chão do porão e olhou a tela por longos momentos em total silêncio.

Era 1985, e ela tinha apenas nove anos.

HOJE:

Alessa estava sentada na mesa da sala olhando fixamente para uma xícara de café que esfriava à sua frente.

O apartamento permanecia em total silêncio, a não ser pelo som da água no banheiro, que caía suavemente na banheira.

Ela acendeu um cigarro (quantos já tinha fumado?) e olhou para a espiral de fumaça que subia.

Quem era ela?

No banheiro, a menina fez um barulho. Estava se lavando. Ótimo. Alessa não aguentava mais aquele cheiro. Tinha certeza de que a menina também não.

Tinha sido difícil trazê-la até o apartamento. Quando a encontrou no contêiner, a garota estava em choque. Estava magra, desnutrida e desidratada. Estava em pânico.

Mas assim que Alessa a tocou, a menina começou a gritar. Gritar e gritar sem parar. Falava rápido e suas palavras não faziam sentido.

Alessa ainda tentou acalmá-la, mas como a menina não parecia entender (ou estava assustada demais para querer entender), a melhor opção foi usar um feitiço para fazê-la dormir.

Alessa suspirou. Estava ficando velha. Velha e mole. Alguns anos atrás ela teria apenas acertado a menina com pé de cabra e depois a teria arrastado para fora. Provavelmente por um pé.

Mas ela tinha preferido fazê-la dormir. Tinha tocado sua testa com suavidade (ou tanta quanto conseguiu) e tinha proferido as palavras (era impressionante como ainda conseguia lembrar delas). Tinha sentido a mente da menina. Tinha tocado seu pânico. Tinha visto seu horror.

“Tinha tocado o coração das trevas”, pensou, lembrando do livro. “O horror, o horror”, tinha escrito Joseph Conrad no século dezenove. Agora ela compreendia o que ele quis dizer.

Assim que a menina dormiu, ela a colocou sobre os ombros. Não tinha sido difícil. Ela deveria ter o quê? Dezessete anos? Mas estava tão magra que até mesmo Alessa a tinha levantado com facilidade.

Aguentar o cheiro foi o mais difícil. Mas depois de conseguir segurar a respiração, o resto foi fácil. Sair do galpão, achar um carro parado na rua, fazer com que ele ligasse usando magia, e dirigir até em casa. Seu pai não ficaria nem um pouco orgulhoso, mas ele não estava ali. E ela não se importava.

Ela riu consigo mesma. O velho teria estalado os dedos e, quando ela abrisse os olhos, os três estariam em casa. Sem suor, sem cheiro ruim e sem ter que desovar um carro numa rua escura às quatro da manhã.

-Valeu, velhote. Obrigado mesmo – sussurrou, bebendo o café frio.

Ela se levantou e foi até o banheiro, encostando o ouvido na porta.

Podia ouvir a menina lá dentro. Ainda estava chorando um pouco, mas parecia mais calma.

Era hora. A horas das bruxas.

Ela abriu a porta com suavidade. Por um instante, quando os olhos das duas se cruzaram, ela achou que a garota iria começar a gritar de novo. Mas não. Ambas estavam muito cansadas pra isso.

Alessa deu alguns passos e se sentou no vaso, encarando a menina. Não pôde deixar de notar que apesar da magreza extrema, a garota era muito bonita. Sua pele era escura. A pele mais negra que ela já tinha visto, e o cabelo preto era comprido e devia estar na altura das costas. Os olhos eram de um castanho escuro e ali, com a água cobrindo seu corpo até o pescoço, Alessa não conseguiu deixar de notar algo de selvagem e sensual nela.

Ela deu mais uma longa tragada no cigarro.

-Eu sei que você fala a minha língua. Em Moçambique se fala português, não é? Então vamos começar do início: qual é o seu nome?

A menina permaneceu em silêncio, olhando-a. Ainda parecia assustada, mas também intrigada.

-Olha, eu me chamo Alessa. Fui eu que tirei você daquela caixa. Preciso saber o seu nome. A gente tem que conversar. Você tem nome? Ou eu vou ter que inventar um? Posso pensar em uns momes bem idiotas…

-Niara.

Alessa ficou surpresa. E menina tinha mesmo respondido. Sua voz era baixa e trêmula, mas tinham começado.

-Niara, certo. Olha, Niara, eu não quero te fazer mal. Eu sei pelo que você passou. Sei que você deve estar exausta e faminta, e que não quer falar sobre nada. Então vou te propôr uma coisa. Termine seu banho, se vista e vamos comer alguma coisa. Eu vou te esperar na sala, tá bom?

A menina fez que sim com a cabeça.

-Ótimo. Te vejo lá em dez minutos. Não fuja, são dez andares até lá embaixo e eu tenho certeza que pular da janela não ia te fazer bem.

Alessa saiu do banheiro, mais tranquila. Por via das dúvidas, tinha tirado a tesoura e o alicate da gaveta do banheiro. Nunca se sabe o que Niara podia tentar fazer – com ela ou a si mesma.

Na cozinha ela começou a preparar o café da manhã. Depois de tanto tempo naquele contêiner, ela deveria estar faminta. Era bom que se alimentasse bem, porque tinham muito a conversar. Muito.

Ela escutou o barulho da porta do banheiro se abrindo e terminou de colocar a mesa do café. Em alguns instantes a menina apareceu na cozinha usando uma das suas roupas. Uma camisa velha que ela quase não usava. Parecia bem mais apresentável assim.

-Sente-se coma. Eu não sei o que vocês comem no café no seu país, mas fique à vontade. Quando você acabar, temos que conversar. Os olhos de Niara se arregalaram, mas ela nada disse.

-Não se preocupe. Não tem carne aqui. Só queijo. Pode comer – disse Alessa enquanto se virava e começava a lavar a louça, ouvindo os ruídos da menina que atacava a comida como um animal.

Tinha tomado cuidado para não colocar nada que lembrasse carne na mesa.

“Era de se esperar”, pensou, “eu também não ia querer ver carne se tivesse comido uma parte dos meus pais para sobreviver”.

Seria um longo dia.