segunda-feira, 27 de julho de 2015

Sangue das Feiticeiras - Capítulo 2 - Presentes




ANTES:

A grande tela de TV se ligou, iluminando a sala escura. Com o leve apertar de um botão, a fita dentro do videocassete começou a girar, e, depois de alguns instantes, Alessa viu o rosto envelhecido de seu pai na tela.

Parecia um pouco mais jovem do que ela se lembrava, mas, com certeza já tinha passado dos cinquenta anos. Os cabelos já estavam um pouco grisalhos e os olhos escuros pareciam um pouco cansados.

Ele demorou um pouco pra falar, como se quisesse ter certeza de que estava gravando, e então, com a voz rouca que Alessa conhecia bem, ele começou a falar.

-Alessa, minha filha, se você está vendo essa gravação, eu não estou mais com você. Posso ter sido morto, levado embora ou talvez alguma coisa ainda pior. Mas não se preocupe, eu vivi bem e longamente. Não tenho arrependimentos.

O rosto na tela pareceu ficar um pouco amargo, e depois de respirar fundo, recomeçou.

-Não. Isso é uma besteira, filha. Eu me arrependo de muitas coisas que fiz. Gostaria de ter ficado mais com você. E com a sua mãe. Eu passei muito tempo fora e mais tempo ainda preocupado com a minha própria vida, e quase não dei atenção para você, minha única filha em todos esses anos.

-Alessa, o que passou, passou, mas eu posso tentar compensar um pouco, filha. Tem muita coisa que você não sabe. Não sabe sobre mim, sobre você e nem sobre o mundo em que vivemos. E eu espero te ajudar a compreender isso. Espero que você esteja me escutando, e que não esteja com raiva de mim. Isso é o que eu posso deixar pra você, filha. Minha herança. Meu legado.

Silêncio.

-Nós, filha. Eu e você, somos diferentes. Diferentes da maioria das pessoas. Você já deve ter percebido isso a essa altura, não é? Deve ter percebido os dons que possui. Os poderes que passei para você através do meu sangue. Sua mãe deve ter te contado. Eu espero que ela tenha te contado, Alessa.

-Alessa, você é como eu. Não exatamente como eu, mas muito parecida, filha. Nós descendemos de uma longa linhagem que vêm de uma época muito, muito longínqua. Já fomos chamados por diversos nomes, mas hoje, somos conhecidos como feiticeiros. Eu sei que você deve estar achando que isso é uma loucura, mas é verdade. Nós dois podemos controlar uma força muito especial, que as pessoas chamam de “magia”, mas isso requer muito treino. A magia é uma coisa muito, muito perigosa.

Silêncio. Apenas o ruído da fita na escuridão.

-E é por isso que estou deixando isso pra você, filha. A minha biblioteca. Todos os meus livros. Tudo que sei. Tudo que aprendi. Tudo. Aqui você poderá aprender sobre o nosso mundo, sobre a magia, sobre o inimigo. E estou deixando essa fita. Essa e muitas outras. Eu vou tentar explicar como tudo funciona, e talvez desse modo eu compense um pouco o fato de não estar aí com você.

-Eu sinto muito Alessa. Mas se tudo tiver dado certo você está recebendo essa mensagem hoje, no seu aniversário de dezoito anos. É a idade mais segura pra você. Tenho certeza que agora você deve ser uma linda mulher e que tem maturidade o suficiente para compreender tudo isso, e não odiar seu velho pai. Lembre-se que eu te amo.

O silêncio caiu novamente na sala, enquanto a fita parava. O ruído do videocassete parou, e com um estalo, o aparelho se desligou.

Alessa se sentou no chão do porão e olhou a tela por longos momentos em total silêncio.

Era 1985, e ela tinha apenas nove anos.

HOJE:

Alessa estava sentada na mesa da sala olhando fixamente para uma xícara de café que esfriava à sua frente.

O apartamento permanecia em total silêncio, a não ser pelo som da água no banheiro, que caía suavemente na banheira.

Ela acendeu um cigarro (quantos já tinha fumado?) e olhou para a espiral de fumaça que subia.

Quem era ela?

No banheiro, a menina fez um barulho. Estava se lavando. Ótimo. Alessa não aguentava mais aquele cheiro. Tinha certeza de que a menina também não.

Tinha sido difícil trazê-la até o apartamento. Quando a encontrou no contêiner, a garota estava em choque. Estava magra, desnutrida e desidratada. Estava em pânico.

Mas assim que Alessa a tocou, a menina começou a gritar. Gritar e gritar sem parar. Falava rápido e suas palavras não faziam sentido.

Alessa ainda tentou acalmá-la, mas como a menina não parecia entender (ou estava assustada demais para querer entender), a melhor opção foi usar um feitiço para fazê-la dormir.

Alessa suspirou. Estava ficando velha. Velha e mole. Alguns anos atrás ela teria apenas acertado a menina com pé de cabra e depois a teria arrastado para fora. Provavelmente por um pé.

Mas ela tinha preferido fazê-la dormir. Tinha tocado sua testa com suavidade (ou tanta quanto conseguiu) e tinha proferido as palavras (era impressionante como ainda conseguia lembrar delas). Tinha sentido a mente da menina. Tinha tocado seu pânico. Tinha visto seu horror.

“Tinha tocado o coração das trevas”, pensou, lembrando do livro. “O horror, o horror”, tinha escrito Joseph Conrad no século dezenove. Agora ela compreendia o que ele quis dizer.

Assim que a menina dormiu, ela a colocou sobre os ombros. Não tinha sido difícil. Ela deveria ter o quê? Dezessete anos? Mas estava tão magra que até mesmo Alessa a tinha levantado com facilidade.

Aguentar o cheiro foi o mais difícil. Mas depois de conseguir segurar a respiração, o resto foi fácil. Sair do galpão, achar um carro parado na rua, fazer com que ele ligasse usando magia, e dirigir até em casa. Seu pai não ficaria nem um pouco orgulhoso, mas ele não estava ali. E ela não se importava.

Ela riu consigo mesma. O velho teria estalado os dedos e, quando ela abrisse os olhos, os três estariam em casa. Sem suor, sem cheiro ruim e sem ter que desovar um carro numa rua escura às quatro da manhã.

-Valeu, velhote. Obrigado mesmo – sussurrou, bebendo o café frio.

Ela se levantou e foi até o banheiro, encostando o ouvido na porta.

Podia ouvir a menina lá dentro. Ainda estava chorando um pouco, mas parecia mais calma.

Era hora. A horas das bruxas.

Ela abriu a porta com suavidade. Por um instante, quando os olhos das duas se cruzaram, ela achou que a garota iria começar a gritar de novo. Mas não. Ambas estavam muito cansadas pra isso.

Alessa deu alguns passos e se sentou no vaso, encarando a menina. Não pôde deixar de notar que apesar da magreza extrema, a garota era muito bonita. Sua pele era escura. A pele mais negra que ela já tinha visto, e o cabelo preto era comprido e devia estar na altura das costas. Os olhos eram de um castanho escuro e ali, com a água cobrindo seu corpo até o pescoço, Alessa não conseguiu deixar de notar algo de selvagem e sensual nela.

Ela deu mais uma longa tragada no cigarro.

-Eu sei que você fala a minha língua. Em Moçambique se fala português, não é? Então vamos começar do início: qual é o seu nome?

A menina permaneceu em silêncio, olhando-a. Ainda parecia assustada, mas também intrigada.

-Olha, eu me chamo Alessa. Fui eu que tirei você daquela caixa. Preciso saber o seu nome. A gente tem que conversar. Você tem nome? Ou eu vou ter que inventar um? Posso pensar em uns momes bem idiotas…

-Niara.

Alessa ficou surpresa. E menina tinha mesmo respondido. Sua voz era baixa e trêmula, mas tinham começado.

-Niara, certo. Olha, Niara, eu não quero te fazer mal. Eu sei pelo que você passou. Sei que você deve estar exausta e faminta, e que não quer falar sobre nada. Então vou te propôr uma coisa. Termine seu banho, se vista e vamos comer alguma coisa. Eu vou te esperar na sala, tá bom?

A menina fez que sim com a cabeça.

-Ótimo. Te vejo lá em dez minutos. Não fuja, são dez andares até lá embaixo e eu tenho certeza que pular da janela não ia te fazer bem.

Alessa saiu do banheiro, mais tranquila. Por via das dúvidas, tinha tirado a tesoura e o alicate da gaveta do banheiro. Nunca se sabe o que Niara podia tentar fazer – com ela ou a si mesma.

Na cozinha ela começou a preparar o café da manhã. Depois de tanto tempo naquele contêiner, ela deveria estar faminta. Era bom que se alimentasse bem, porque tinham muito a conversar. Muito.

Ela escutou o barulho da porta do banheiro se abrindo e terminou de colocar a mesa do café. Em alguns instantes a menina apareceu na cozinha usando uma das suas roupas. Uma camisa velha que ela quase não usava. Parecia bem mais apresentável assim.

-Sente-se coma. Eu não sei o que vocês comem no café no seu país, mas fique à vontade. Quando você acabar, temos que conversar. Os olhos de Niara se arregalaram, mas ela nada disse.

-Não se preocupe. Não tem carne aqui. Só queijo. Pode comer – disse Alessa enquanto se virava e começava a lavar a louça, ouvindo os ruídos da menina que atacava a comida como um animal.

Tinha tomado cuidado para não colocar nada que lembrasse carne na mesa.

“Era de se esperar”, pensou, “eu também não ia querer ver carne se tivesse comido uma parte dos meus pais para sobreviver”.

Seria um longo dia.

Nenhum comentário:

Postar um comentário