CAPÍTULO 1
A carroça subia a rampa chacoalhando. Fazia muito tempo que a estrada não era devidamente tratada, e o mato e as pedras atrapalhavam a passagem. Por si só, a pequena estrada de terra batida já era íngreme e apertada, mas no estado que se encontrava só um viajante habituado com o caminho seria capaz de atravessa-la sem sofrer um acidente.
Era um péssimo caminho, mas o mestre desejava que fosse deste modo.
O aprendiz desceu da carroça e conduziu a mula pelo morro. A lua cheia ajudava a ver o caminho, mas a mula parecia irrequieta por algum motivo. Com a mão esquerda ele puxava a rédea e com a direita segurava o cabo da espada curta que carregava na cintura. Ele a havia afiado na noite anterior, mais por hábito do que por necessidade.
Era algo que havia aprendido com seu mestre: afiar a lâmina na primeira noite de lua cheia, para que ficasse fria.
Essa era uma tradição. Uma entre muitas. Seu aprendizado era cercado de regras, muitas das quais pareceriam inúteis para os leigos. Algumas até para os iniciados, mas assim eram os alquimistas: homens de hábitos arraigados.
Ele continuou a subir em silêncio. Os músculos do braço esquerdo contraídos para forçar a mula a subir. O animal ofegava e, no frio da noite, a respiração de ambos formava pequenas nuvens brancas.
"Ar quente encontrando com ar frio", pensou instantaneamente. "Ar se condensando". "Na natureza todo elemento busca estabilidade". Os ensinamentos do seu mestre ecoaram em sua mente.
Ele havia ficado fora da torre por quase três semanas. A viagem tinha sido mais longa do que havia imaginado. Seu mestre o havia enviado à cidade mais próxima para comprar frascos, essenciais ao seu trabalho. Mas a estação das chuvas chegara um pouco antes do que tinha previsto e a estrada estava intransitável. Nos dois anos em que fizera esse trajeto, nunca tinha visto a estrada em um estado tão lastimável.
Mas agora estava de volta. O sol havia secado a lama e o caminho estava reaberto. Os frascos para os ingredientes e poções estavam bem acomodados na carroça e em breve ele estaria de volta ao seu aprendizado. Seu mestre ficaria satisfeito com seu trabalho.
Ele chegou ao topo do morro. Lá de cima, com a ajuda da lua cheia, conseguia ver toda a vasta região. Ao norte o grande rio seguia, cortando todo o distrito. Os mapas antigos diziam que o Hladna Voda seguia desde as terras de Kaos até o distrito de Zivljenje, por vários e vários quilômetros, até despejar suas águas no mar interno, muito mais ao norte.
Mas ele nunca soube se isso era verdade. Nunca fora tão longe em suas viagens. Alquimistas não viajavam muito, pensou. Mais uma das tradições.
Pouco mais, ao Oeste, ficavam as Pequenas Cordilheiras, que, dessa distância, pareciam ainda menores. Mais à frente, as Grandes Cordilheiras se erguiam escuras e ameaçadoras, infinitamente distantes aos olhos de meros humanos.
Mesmo daquela distância, ele sempre tinha a impressão de que algo estava aceso nos picos, como uma enorme fogueira. Mas não. Era distante demais.
E ao sul, pouco mais a frente, havia o bosque dos carvalhos. Lar de seu mestre, onde a torre que um dia foi chamada de Torre de Iskanje permanecia de pé há tantos anos que nem mesmo os livros que havia lido traziam a data de sua construção. Uma construção maciça de pedra cinzenta, com três pavimentos e janelas para os quatro pontos cardeais.
Imponente e imemorial, a Torre era um refúgio de sabedoria, onde os conhecimentos dos antigos Alquimistas era preservado e repassado. Uma mistura de escola, templo e laboratório, ali era o lar de seu mestre e, pelos últimos dois anos, tinha sido também o seu. O único que conhecera em toda a sua vida.
Não que a vida ali fosse fácil. A rotina era exaustiva. O treino dos elementos. Seu mestre chamava de "elementarno modrost".
Acordar cedo, antes do nascer do sol. Se banhar na água fria do riacho que vinha do Voda e que nunca teve um nome. Preparar a comida para si mesmo e para seu mestre. Cortar lenha e cuidar da horta e dos animais. Manter a torre limpa e organizada. Essas eram as tarefas domésticas.
O elemento Terra.
Ao nascer do sol as aulas começavam. Praticar exercícios e treinar combate com espada com seu mestre. A manhã era toda dedicada à arte da lâmina e da guerra.
O elemento fogo.
Quando a tarde chegava, começavam as preparações das poções. O treino das quatro fases alquímicas: negra, branca, amarela e vermelha. A arte em si, conforme a tradição. Passada pelos grandes mestres até o seu mestre, e agora para ele.
O elemento água.
Quando a noite chegava e a lua subia ao Céu, começava o estudo. Livros e papiros. Textos e aulas. Pesquisar, ler, aprender, escrever. Línguas e história, letras e sabedoria. Suas noites eram voltadas ao aprendizado da arte.
O elemento ar.
E assim havia sido. Dois longos anos nos quais a tradição e mantinha. "Alquimistas eram homens de hábitos", dizia seu mestre. Sempre.
Ele olhou para a direção da Torre. Sempre que retornava de uma viagem gostava de ver o sol nascer daquele ponto, olhando a torre cinza se tornar cada vez mais dourada com os primeiros raios do sol.
Sentou-se em uma pedra e aguardou. Em alguns minutos o sol começou a nascer e ele pôde ver a torre, cercada pelo círculo de pedras e pelos carvalhos sagrados, quase tão antigos quantos a própria Torre. Entre as copas das árvores, ele percebeu um longo fio de fumaça negra.
Alguma coisa estava errada.
Ele se levantou com um salto, deixando a mula e a carroça para trás, e começou a correr colina abaixo. Ia tropeçando nas pedras e raízes, olhos fixos na torre fumegante. A mão apertava com força o cabo da espada e, com um último salto, chegou à planície.
Correu em direção ao bosque e, pronunciando as palavras antigas de proteção. Palavras de oração tão antigas que mesmo seu mestre não conhecia a sua origem. Palavras que mesmo eles, Alquimistas, homens de razão e do conhecimento, pronunciavam de maneira supersticiosa.
E então parou entre os carvalhos. A espada caiu da sua mão, e ele percebeu que seu corpo todo tremia. O impossível tinha acontecido.
Alguns metros à sua frente, a secular Torre de Iskanje jazia, tombada.
CAPÍTULO 2
Ela se abaixou para limpar a mesa. Assim como as últimas cinco, esta também estava imunda. Pela décima vez naquela semana ela jurou pelos Deuses novos, pelos antigos e pelos esquecidos que aquela seria a última mesa imunda que iria limpar.
Enquanto esfregava com força o tampo de madeira ela riu consigo mesma. Ir embora não era uma opção. O que ela faria? Venderia seu corpo? Quem iria querer uma menina magricela de dezesseis anos?
Não que ela realmente tivesse dezesseis anos, mas sua aparência permanecia a mesma desde aquela época. Talvez fosse um efeito do estudo da arte. Talvez fosse o preço do conhecimento.
Provavelmente era apenas sorte.
Mas não. Prostituição não era uma opção. Nem mesmo se fosse prostituição sagrada (e não seria). O melhor, por enquanto, era continuar a esfregar mesas imundas e sorrir para cada cliente idiota que entrasse na taberna.
Logo seria noite novamente, e ela deveria deixar todas as mesas do salão limpas, ou ao menos utilizáveis. O critério dali era algo entre uma mesa de madeira de uma pocilga e um balcão de um matadouro. Manchas de cerveja e gordura eram opcionais.
No Templo essas mesas não serviriam nem mesmo para misturar esterco.
Mas ali não era o Templo. E ela não estava ali para ensinar a arte da limpeza para o seu patrão. Estava ali para conseguir dinheiro e para ouvir. Isso e conseguir transporte para a Capital, Mati Zemlja.
Mas já havia passado quatro meses e nada. Nenhuma informação sobre nenhuma das.
-Taisha, traga essa bunda magra aqui. Preciso de ajuda.
Ela se levantou e caminhou com má vontade até o balcão. Seu patrão era um homem de meia idade, gordo e fedorento. Passava metade do tempo reclamando e a outra metade gritando ordens e palavrões.
Por sorte sua aparência infantil mantinha suas mãos gordas e suadas longe, mas ela não teve a mesma sorte com os outros clientes daquele buraco. Homens. Sempre atrás de carne fresca. Mesmo que fosse fresca demais.
Ela o ajudou em silêncio. Desde que começara a trabalhar ali ela tinha falado muito pouco. Apenas o suficiente para fazer os pedidos e perguntar sobre o dia-a-dia da vila.
Não que isso fosse necessário. Pessoas falavam. Pessoas bêbadas falavam muito. E ali o que mais havia era gente bêbada. Boa cerveja sempre soltava a língua.
E essa era a única coisa que ela tinha que admitir: a cerveja era boa. Tom era um porco imundo, mas a cerveja que sua mulher e suas filhas faziam no galpão dos fundos era boa. Espessa e amarga. Bem diferente dos licores que bebiam no Templo.
Muitas vezes, quando Tom a deixava fazer suas duas refeições do dia, ela enchia uma caneca para acompanhar a galinha fria. Sua instrutora a chamaria de grosseira apenas por beber aquele lixo, pensou.
E toda vez que ela olhava as roupas velhas e surradas que estava usando - uma droga de uma túnica amarrada por uma tira na cintura, calças velhas feitas de lona e botas toscas - ela pensava o que seus irmãos-em-arte pensariam dela.
E ela não se importava.
Nenhum deles estava ali. Todos estavam no Templo. Seguros e aquecidos durante toda a estação das chuvas, estudando e comendo bem. Provavelmente estariam sentados no grande salão comendo e rindo agora.
E ela não os invejava.
Ela tinha partido quatro meses atrás. O assunto tinha sido discutido e rediscutido com sua superiora direta. A mulher mais velha tinha fingido discordar, ensaiado um pedido de reconsideração, mas, sinceramente, Taisha duvidava que ela realmente lamentasse sua partida.
Nenhum deles tinha lamentado. Ela era uma aluna medíocre segundo os seus professores. Com muita capacidade, dissera um, mas sem nenhum interesse. Jamais seria capaz de controlar sua runa.
Idiotas. Todos idiotas.
Taisha não era desinteressada. Muito pelo contrário. Quando os outros escolheram suas runas, optando por dedicar suas vidas ao aperfeiçoamento dos seus estudos, à busca do poder, ela simplesmente optou por esperar.
Quando os iniciados da ordem de Snemanje, os chamados snemalniki completavam cinco anos de estudo, e após todos os testes -malditos testes - todos devem optar por um campo de estudo, uma runa. A essa runa ele dedicará o resto da sua vida. Deve estudá-la e conhecê-la. Deve dominá-la.
Os mestres, então, marcavam a runa escolhida na carne do recém- iniciado, e o aprendizado seguia por anos e anos.
"Saiba como talha-las e saiba como escrevê-las. Saiba como lê-las e saiba como entendê-las. Saiba como evoca-las e saiba como usá-las. Saiba como apagá-las." Essa era a Lei.
Muitos alunos escolhiam as runas mais poderosas. Alguns escolhiam runas de combate, que concediam força ou proteção. Outros runas elementais. Poucos escolhiam runas de cura e restauração. Menos ainda optavam pelas runas do espírito ou da mente: campos ainda pouco explorados, onde só os mais sábios e preparados sobreviviam.
Mas Taisha tinha optado pela Runa Branca. Chamada de Runa de Ligação. Povezava, a esquecida.
A runa de ligação era chamada de runa perdida. Muito tempo atrás ela era considerada uma runa sagrada, que ligava uma a outra. Os textos antigos a chamavam de Runa Branca porque era isso que ela era, o fundo branco onde as outras runas eram escritas. Era ela que fazia com que as runas funcionassem em uníssono.
Mas os objetos rúnicos, os artefatos onde as runas sagradas eram gravadas, estavam perdidos. A arte de gravar as runas estava perdida também, e a Runa Branca tinha perdido seu valor. Em mais de dois séculos, ninguém a havia escolhido.
A não ser Taisha. E isso foi visto por seus instrutores como uma forma de escapar de seus estudos.
Depois da sua escolha, os sábios marcaram a runa no seu corpo. Atendido a um pedido da sua superiora - que a odiava - a runa foi marcada em sua testa, e era escondida apenas pela sua franja.
Taisha não reclamou. Permaneceu no templo por mais um ano e então partiu, com a desculpa de que precisava realizar uma pesquisa. Era raro que um snemalniki pudesse sair pelo mundo tão cedo, mas os Sábios autorizaram sua partida. Para eles ela era um incômodo. E ela partiu.
A viagem não foi difícil. Nos primeiros dias ela caminhou pelas trilhas abandonadas do bosque. Principalmente de noite. As estradas principais eram perigosas para uma mulher, ela sabia, e o melhor era manter a distância.
Mas após uma semana ela relaxou. As coisas estavam indo bem, e em dois dias ela estaria no vilarejo mais próximo. Foi então que ela parou para se banhar em um pequeno lago e suas roupas, sua adaga de prata e seus poucos denares foram roubados.
Então ela vagou pelo bosque. Nua, assustada e com frio. Uma snemalniki humilhada por bandoleiros. Após algumas horas sua sorte voltou e ela encontrou uma cabana onde roupas estavam penduradas secando. Estavam um pouco úmidas, mas serviram.
Pouco tempo depois ela chegou ao vilarejo. Dois dias depois estava trabalhando na taberna. Não tinha dúvidas de que logo conseguiria transporte para a Capital.
Quatro meses depois e ele ainda estava ali.
Aquela maldita vila era um buraco perdido no meio do nada. Ninguém viajava para longe. Ninguém sabia o caminho para a Capital. Ela estava presa ali.
Mas algo dizia que sua sorte mudaria em breve. Logo ela estaria a caminho de Mati Zemlja em busca de pistas sobre os artefatos rúnicos.
Ela riu sozinha. Perdidos? Não mesmo. Ela passou os últimos anos pesquisando. Lendo livros tão antigos que se desfaziam ao toque. Perdidos nos calabouços do Templo, eles continham histórias e segredos que até mesmo os mais antigos dos Sábios haviam esquecido.
Um trovão estourou ao longe. A estação das chuvas continuava com toda a sua força.
Ela começou a servir as mesas. Naquela chuva muitos homens procuravam um pouco de calor, conversa e comida. Tom ficaria de bom humor.
Após servir a todos ela se encostou em uma parede com uma caneca de cerveja. Cortesia do patrão. Suas pernas estavam cansadas e suas mãos escaldadas. O serviço ficaria um pouco mais calmo por um tempo. Era hora de escutar.
Em uma das mesas um grupo de soldados vindos das terras de Da conversava. Nos últimos tempos eles vagavam por essas terras escoltando diplomatas. Sua linguagem era estranhamente rígida. "Nenhuma melodia", ela pensou. "Falam como quem recita matemática".
Estavam molhados e se sentaram perto do fogo, debatendo sobre um raio que tinha derrubado algo no bosque dos carvalhos. Ela não conseguiu compreender muito mais, pois a língua não era familiar.
No outro lado do salão dois homens brincavam com uma mulher loira muito jovem. Uma prostituta conhecida na área. A menina estava ali todos os dias, e tinha idade para ser filha de Taisha. Ela suspirou. De onde vinha, as mulheres valiam um pouco mais.
Bebeu um gole da cerveja. Será que valiam mais? Ela era uma snemalniki, treinada e letrada nas artes, e estava ali, servindo mesas, limpando o chão e sendo apalpada por bêbados.
Talvez ninguém tivesse nenhum valor. Todos eram brinquedos para os Deuses.
De que lhe valeu todo o seu conhecimento? Agora não passava de uma mulher comum. Ler runas não serviria de nada se não encontrasse runas para ler.
Ela se virou para o lado. No canto mais escuro do salão um rapaz estava sentado sozinho. Estava um pouco molhado e parecia transtornado. Tinha pedido comida e cerveja, mas não tinha tocado em nada. Taisha tinha notado que ele estava armado. Parecia meio louco.
Tudo que ela não precisava ali era um louco armado com uma espada.
Ela se aproximou da mesa para perguntar se estava tudo bem. Em regra ela evitava essa espécie de contato com os cientes, mas algo no rapaz chamou sua atenção. Não era belo, talvez um pouco baixo. Seus cabelos eram curtos e possuía uma barba bem feita. Parecia um pouco musculoso. No todo, parecia um soldado.
Mas algo nele era diferente. No fundo ela sentia que ele não era dali. Provavelmente era um forasteiro, como ela.
Ela chegou perto por trás, e percebeu que ele estava nervoso, falando sozinho. Tremia de frio.
Louco, com certeza. E armado.
Ela pensou em se virar e chamar Tom. Ele e os rapazes estavam acostumados a lidar com esse tipo de coisa. Bêbados inconvenientes eram o que não faltava ali. E ela era só a menina que servia as mesas.
Foi então que ela viu o livro em cima da mesa. Era grande e encadernado em couro, com uma aparência antiga e páginas amareladas. Um objeto inesperado em uma taberna no meio do nada, principalmente porque a maior parte da população não sabia ler.
Curiosa, ela não resistiu em esticar o pescoço e espiar. Forçando um pouco a vista para enxergar na penumbra ela percebeu, surpresa, que o livro estava escrito em rúnico.
Ela se aproximou nervosa. Quem era ele? O que estava fazendo ali? Por que estava com aquele livro? Não era um dos alunos do Templo. Por que estava falando sozinho? Ninguém de fora do templo era capaz de ler runic jezik, a linguagem as runas.
A não ser ela.
Durante cinco anos ela tinha se preparado. Durante um ano ela tinha planejado, e nos últimos quatro meses ela tinha procurado. Finalmente havia encontrado um artefato rúnico. Por pura sorte. Ou destino.
Agora tudo o que ela precisava fazer era matar esse homem.
CAPÍTULO 3
Somente quando ele finalmente se sentou para descansar foi que percebeu que não tinha comido e bebido nada nos últimos dois dias. Suas mãos estavam feridas e sangravam por causa do esforço. Tinha passado todo esse tempo revirando os escombros da Torre em busca de seu mestre - vivo ou morto.
Não tinha encontrado. Isso deveria ser um alívio, mas por algum motivo não era. Algo estava muito errado naquilo tudo.
A Torre de Iskanje era uma construção imemorial, perdida em histórias tão antigas que mesmo seu mestre era incapaz de citar sua origem. Suas raízes estavam fincadas no bosque dos Carvalhos há tanto tempo que - diziam - não havia nenhuma árvore anterior à sua construção.
E as árvores do bosque eram muito, muito antigas.
Por mais que tentasse não conseguia imaginar nada nem ninguém que fosse capaz de derrubá-la deste modo. Em sua mente a Torre sempre existiu e sempre existiria, assim como a própria Alquimia.
Certa vez, quando estava com seu mestre havia pouco tempo, ele o ouviu dizer que "na natureza, todo elemento procura o repouso". Durante esses dois anos ele ainda ouviria seu mestre repetir essa frase muitas e muitas vezes, com apenas algumas variações.
Ele então, achando-se muito esperto, disse ao mestre que a existência da Torre era uma violação a essa regra, pois ela se erguia de maneira antinatural, entre as árvores do bosque. E não parecia possível que caísse.
Seu mestre então respondeu que a Torre existia como um símbolo do domínio dos Alquimistas sobre, que era chamado de naravna domena. Mas que um dia, não se sabe quando, a Torre cairia. "Na natureza, todo elemento procura o repouso".
Ele nunca esperou estar vivo para presenciar isso.
E agora se sentia exausto e derrotado. Cada vez que levantava uma pedra ou encontrava um frasco quebrado tinha vontade de desistir. Dois anos de trabalho jogados fora. Todas as poções que ele e seu mestre tinham feito juntos estavam destruídas. Seu mestre provavelmente estava morto.
Ele estava novamente sem um lar.
Sentou em um bloco de pedra nos escombros. Eram tantos que parecia impossível colocar todos de pé. A chuva tinha recomeçado fina e gelada. Ele abaixou a cabeça, vencido pelo cansaço, e dormiu.
Quando acordou já era noite novamente. A Lua cheia brilhava no céu, que estava limpo. No silêncio absoluto do bosque, as ruínas da Torre traziam uma enorme sensação de solidão.
Não havia mais o que fazer ali. Ele decidiu pegar tudo que pudesse encontrar e partir para a vila mais próxima. Ficar ali não era uma opção. Quem sabe não conseguiria alguma pista sobre o que tinha acontecido com a Torre e com seu mestre.
Pegou uma sacola de lona e começou a procurar. Qualquer coisa serviria. As poções não tinham resistido à queda, os móveis estavam destruídos e, mesmo os poucos bens que tinham aguentado a destruição estavam espalhados.
Aos poucos ele conseguiu juntar umas poucas roupas que estavam espalhadas no lugar onde tinha sido seu quarto. Os instrumentos alquímicos estavam destruídos e os estoques de ervas estavam perdidos para sempre.
Ele caminhou até o local onde ficava o quarto de seu mestre. Ali a destruição fora maior. Nada tinha resistido. O que teria causado tal destruição?
Nem os livros, nem os frascos e nem as armas tinham ficado inteiras. Ele ajoelhou no centro do aposento, onde o que sobrou de um belo tapete permanecia, e o retirou. Embaixo, uma porta de alçapão permanecia intacta. Quem quer que tenha causado tudo isso, não encontrou a entrada secreta.
Ele levantou a pesada porta e enfiou a mão na escuridão. Não se tratava de um porão, mas de um armário, de onde ele tirou um grande livro envolvido em seda negra.
Ainda estava ali. O Mojster, o livro do seu Mestre. A compilação de todo conhecimento alquímico existente nessa Era. Seu mestre nunca se separava desse livro, e ele mesmo nunca tinha lido suas páginas.
Ele o abriu ali mesmo. Sua capa era de couro antigo e suas páginas estavam amareladas. Não era tão grande, mas era volumoso e pesado. Dentro, milhares e milhares de ideogramas desconhecidos cobriam cada centímetro das páginas.
Ele sabia que o livro era escrito em rúnico. Seu mestre chamava a linguagem de runic jezik, mas nunca o havia ensinado a lê-la. Em suas mãos todo aquele conhecimento imemorial era inútil.
Ele suspirou amargurado. As coisas não poderiam piorar.
Foi então que ele sentiu a lâmina fria tocando suavemente sua garganta.
Ele olhou para o alto e viu à sua frente uma figura vestida dos pés à cabeça com estranhas roupas em tons de preto e púrpura. À primeira vista ele teve a impressão que a pessoa vestia um manto, mas então percebeu que se tratava de uma peça única na qual todo o rosto estava coberto, e que apenas os olhos eram vistos por uma fresta.
Lembrou instantaneamente das roupas que os mercadores do deserto de Suh Veter usavam para se proteger do vento e da areia.
E os olhos. Os olhos eram de um azul profundo. Ele nunca tinha visto nada igual. Tão frios quanto a espada longa e fina que agora estava no seu pescoço.
-?????, ???? ????. ?????????.
-Eu não falo sua língua.
-???????, ??????.
-Já falei que não entendo sua língua, mulher!
-Meu. Dê.
As palavras da mulher foram pronunciadas com alguma dificuldade. Ao contrário da estranha língua que ela tinha pronunciado anteriormente, que era fluida e cantada, as palavras ditas no idioma comum pareciam cheias de ódio e nojo.
Ele se levantou aos poucos e a encarou. Era mais baixa do que ele e segurava a espada com firmeza. Seus olhos continuavam fixos.
-"Não". Ele disse com frieza.
Ela pareceu hesitar por um momento. E foi tudo que ele precisou. Ele se jogou para o lado direito e rolou no chão, alcançando a parede mais próxima. Suas pernas estavam cansadas, mas ele encontrou força suficiente para ficar de pé novamente e sacar a espada curta da bainha.
-Quem é você? Onde está meu mestre?
A mulher nada disse. Apenas o encarou, com a espada baixa. Furioso, ele partiu para cima dela com a espada em punho.
Ela defendeu com graça. Ele nunca tinha visto ninguém lutar de maneira tão. graciosa? Sim, essa era a palavra. Ela não parecia lutar, mas dançar.
Ele a atacou novamente, e dessa vez ela esquivou e acertou suas costas com a lâmina. O corte não foi profundo, mas ele sentiu um choque de dor percorrer seu corpo.
-???? ??????, ???? ???? ???????????. ???? ? ??????? ????. ???????.
Ele partiu para cima dela pela terceira vez. Agora com toda a sua força, ela mais uma vez esquivou e colocou o pé na sua frente. Ele caiu no chão molhado do aposento, os joelhos batendo com força na pedra dura. Não adiantava, ela era muito superior a ele na espada.
-???? ???? ?????? ????, ???? ?? ?????? ???? ????? ???? ??????? ???????? ????????.
As palavras pareciam mais raivosas. Ele tentou se levantar, ferido e humilhado, mas estava cansado demais. Apoiou a lâmina da espada no chão e tentou ficar de pé.
Foi então que ele viu. Aos seus pés, caída no meio dos escombros e dos frascos quebrados, havia uma pequena noz. Caberia perfeitamente na palma da sua mão e poderia ser sua única chance.
Ele largou a espada e caiu com os dois joelhos no chão, derrotado. Lentamente, pegou a noz com a mão direita, e olhou para sua atacante.
-"Desisto. Pegue o maldito livro". Disse, estendendo-o para ela.
Ela estendeu a mão, sem largar a espada. Ele pôde ver desconfiança nos seus olhos. Esticou o braço até seus dedos enluvados tocarem a capa escura.
Então ele sorriu e atirou a noz com força no chão. Num instante um grande clarão branco e vermelho encheu o quarto, e uma grande nuvem de fumaça cinza cobriu os dois. A camuflagem perfeita.
Ele pegou sua espada no chão e fugiu correndo pelo que restava da janela, sumindo instantes depois no meio do bosque, o livro em seus braços.
Seu mestre tinha deixado como presente sua última noz de fogo, e isso o tinha salvado.
Agora, ele precisava apenas sobreviver.
Ali nada se movia. A sua volta os escombros do antigo salão estavam cobertos de poeira e teias de aranha. Mas mesmo estas haviam morrido muito tempo atrás. Agora, os únicos habitantes do grande salão de Pozabljivost eram os esqueletos apodrecidos e suas armaduras velhas e enferrujadas.
E ele. Ele ainda estava lá. Sempre estaria.
Houve um tempo em que seu nome era Wodan. Mas isso foi muito tempo atrás. Nessa época ele era apenas um soldado dos exércitos das terras Da. Não um cavaleiro nem um Strokovnjak Vrtalec, os famosos lanceiros de Da, mas apenas um peão nos grandes Exércitos Retangulares, como eram conhecidos mundo afora.
Nessa época ele carregava sua lança e armadura. Dava de comer e beber aos cavalos. Com um pouco de sorte fazia o serviço de carregador. Fazia parte dos baixos polnilec, rapazes que carregavam feno. Era um cargo ruim, mas havia comida.
E ele aprendeu muito. Era capaz de caçar, Capturar e criar animais.
Nesse tempo ele era chamado de pai.
Foi no final do outono, muito tempo atrás. Ele estava no exército há um ano. Ela era uma camponesa que ele conheceu em um dos ataques com o Exército Retangular a um vilarejo vizinho. Eram épocas de guerra e ele não se preocupou com o nome dela.
Assim era a vida de soldado. Algumas noites frias precisavam ser aquecidas.
Dois anos depois, ao retornar ao vilarejo, ele foi recebido por uma menina de cabelos escuros encaracolados e nariz escorrendo. Era órfã, pois a mãe tinha morrido no parto. Soldados não costumavam acolher nem criar seus Nocni Trofeje, mas ela tinha os olhos dele.
Ele saiu da vila e pediu baixa do exército. Um mero carregador de feno não faria falta nos exércitos do Reino, e mudou para uma vila longe da guerra. Uma menina deveria crescer na paz.
Com os poucos denares que tinha juntado, comprou uma pequena casa e alguns porcos. Ele tinha aprendido a cuidar dos animais no exército. Também sabia lutar. Não era nada mal com a lança e o escudo. Não era uma vida ruim. Ele poderia envelhecer ali e Zima crescia a olhos vistos.
Fora do salão, a chuva caía novamente. Tinha chovido muito nos últimos dias, ele tinha percebido. Depois de tanto tempo sentado no escuro, sua audição tinha se apurado de um modo que nem mesmo ele acreditava.
No alto do pináculo, sua prisioneira se mexeu e soltou um longo gemido de dor.
Ele não se moveu. Sabia que ela não poderia escapar dali.
Sua mente vagava por entre aqueles anos de paz. Zima tinha chegado aos quatorze anos. Era, de longe, a menina mais cobiçada do vilarejo, e uma ou duas vezes ele teve que sacudir sua lança para expulsar os jovens que vinham sob a sua janela fazer juras de amor.
A vida era doce.
Ele se sentava na lareira todas as noites para ouvi-la cantar. E ela cantava bem. Nunca seria capaz de viver disso, mas sua voz era rouca e bela. Toda vez que ele a ouvia cantar se lembrava que tudo aquilo tinha valido a pena.
Mas os tempos de paz não duram para sempre. Os alquimistas diziam. o que era mesmo que os alquimistas diziam? Fazia tanto tempo.
Naquele tempo Zima tinha escolhido um pretendente. Era um bom rapaz, filho do oleiro. Tinha herdado o ofício do pai e era honesto e trabalhador. Assim que começou a cortejar a menina, ele aparecia todos os dias pela manhã para oferecer ajuda com os porcos. Era um garoto esperto, ele pensava. Pena que não lembrasse mais do seu nome.
Ele começou a ensinar o rapaz a caçar e capturar animais. Ele era capaz disso.
Mas numa noite de inverno. Por que tudo sempre acontecia nas noites de inverno? Numa noite de inverno eles chegaram. Não soldados de Da. Não assassinos de Quimada. Nem mesmo os antigos gigantes das terras altas de Vitrovi, onde - diziam - todos os habitantes eram maiores do que a lendária Torre de Iskanje.
Não. Eles eram homens-chacais de Kaos. Os Lacno Moski. Os homens famintos.
Ele lutou. Todos lutaram. Tudo que se lembrava era de acordar boiando em um pequeno lago até perceber que a água agora era vermelha.
Não havia mais ninguém. Todos os homens estavam mortos. Todas as crianças e mulheres tinham sido levadas como escravas ou como alimento, pois os Lacno Moski só tinham dois apetites: carne e mulheres.
Ele pegou tudo que ainda possuía e partiu atrás dos rastros. Não eram difíceis de seguir. Depois de três luas ele os encontrou sob uma colina. Eram pouco mais de vinte, e as escravas estavam amarradas pelo pescoço.
Ele sabia como acha-los. Era como caçar um animal. Ele era capaz disso.
Ele desceu a coliga girando sua lança e gritando. Três que estavam no seu caminho morreram na hora. Os demais se uniram ao seu redor, gritando, uivando e salivando. Ele era incapaz de compreender sua língua, mas sabia muito bem o que viria a seguir.
Sua prisioneira se contorceu lentamente. Suas mãos magras seguravam a enorme estaca negra. Ele permaneceu sentado. Eternamente vigilante. Anos e anos ali sentado haviam afastado toda a cãibra que pudesse sentir.
Depois do segundo golpe atingir seu corpo ele compreendeu que nunca mais veria sua filha. Seus olhos negros permaneceriam para sempre em sua mente como a última visão antes da morte.
Então ele ouviu a trombeta. E soube que o Exército Retangular tinha chegado.
Era um pequeno grupo. Cerca de dez homens. Mas nada era capaz de sobreviver àquilo. Nenhum bárbaro armado com um tacape poderia derrotar Cavaleiros em armaduras que montavam enormes cavalos de combate e usavam longas espadas feitas de bela zeleza, o aço branco dos Alquimistas.
"Na natureza tudo busca a morte", diziam os alquimistas. Era isso que eles diziam.
Eles libertaram as escravas e queimaram os corpos. Ele procurou por Zima e não a encontrou. Tremeu como uma criança ao imaginar que sua filha nada mais era do que uma pilha de ossos.
Foi então que a velha curandeira do vilarejo, uma das mulheres que havia sobrevivido contou que Zima tinha fugido com o namorado quando os Homens Famintos chegaram.
Ele voltou para o vilarejo naquela mesma noite. E poucos dias depois começou a procurar por pistas. Ali, em uma caverna escondida na outra margem do lago, ele encontrou os dois. Não foi difícil. Era como caçar um animal. Ele era capaz disso. E também de captura-los e cria-los.
O rapaz tinha machucado o braço na fuga, ao matar um inimigo, mas sua filha tinha sido ferida por uma flecha de sangue. Agora o veneno seguia por seu corpo, e ela viveria muito pouco.
Ela agora dormia o sono daqueles que iriam morrer.
Cansado e frustrado, ele chorou por uma noite. A lua cheia brilhava no céu. Seria lua cheia lá fora hoje? Ele tinha perdido a noção de tempo.
Lá em cima sua prisioneira estava silenciosa, como era na maioria do tempo.
Quando acordou, tinha sonhado com a Lua. Não a lua do céu, mas Sestra, a Senhora Sem Face, que era cultuada pelos elfos de Zivljenje como a Irmã de todos.
Em seu sonho, ela disse que ele devia vagar para o Sul, para as terras vazias de Smrt, onde caminhavam os mortos-que-respiravam. Lá ele encontraria uma Torre Negra, cujo nome não era possível pronunciar em nenhuma língua. Lá ele encontraria a morte.
Se quisesse sua filha de volta ele deveria escalar a torre e enfrentar a morte. Deveria derrota-la e exigir a vida de Zima de volta. Só assim ela viveria, e ele teria outra vez a vida simples e boa que tinha antes.
Ele explicou isso ao rapaz e partiu. Não importava que o achassem louco, mas apenas que a mantivessem viva até ele chegar às terras de Smrt. E assim foi. Seis meses depois ele escalava a Torre com a lança e o escudo em punhos, o olhar ensandecido e apenas uma coisa em mente: trazer sua filha de volta.
Ele sabia que era uma tarefa impossível. Tinha treinado todas as noites durante a viagem, mas mesmo assim nem mesmo nas lendas que escutara do Knjiga Pominov quando criança, nenhum mortal havia matado a morte.
Era impossível matar aquilo que estava morto.
Mas ele era um guerreiro. Era um criador de porcos. Era pai. Ele sabia o que precisava ser feito. Desceu as escadarias sem fim da Torre com armas em punho.
Ele não era um cavaleiro. Não era um Lanceiro. Mas era capaz de caçar e capturar um animal.
Empalada na grande estaca negra, sua prisioneira novamente se mexeu. Mas não adiantaria.
Não até que ela devolvesse a vida da sua filha.
Ele mal conseguiu dormir. Embora estivesse exausto e ferido simplesmente não era capaz de fechar os olhos enquanto a mulher dos olhos azuis estivesse lá fora.
Era loucura, com toda certeza. Ele tinha corrido pelo bosque enquanto teve forças para isso. Depois se jogou em um pequeno córrego que encontrou no caminho. Por fim, tinha encontrado uma caverna abandonada e literalmente se arrastado lá para dentro.
Abandonada era o termo exato. Alguma coisa tinha feito aquele buraco de lar até algum tempo atrás. Havia restos de uma fogueira e alguns ossos de animais pequenos. Havia também restos de pano num canto. Cheiravam terrivelmente mal, mas era melhor do que ficar lá fora no frio.
Ele estava tremendo. Resultado do frio da noite e das suas roupas molhadas. Ele não se atrevia a acender uma fogueira. Além da sua caçadora existiam outras coisas no bosque que caminhavam de noite e eram atraídas pela luz. Era melhor ficar quieto.
Enquanto tremia ele tentava organizar os pensamentos. A Torre destruída, seu mestre desaparecido - ou pior - morto. O livro em suas mãos. O ataque de uma desconhecida. Informações demais para sua mente.
Ele olhou o que tinha conseguido recuperar da Torre. Poucas roupas secas, mas que serviriam. Um rolo de corda, um pequeno frasco de poção de cura. O suficiente para um uso. Esse frasco ele nem mesmo se recordava de ter pegado, e com certeza deveria estar no meio das roupas. Um pouco de sorte, para variar.
Fora isso ele tinha apenas a sua espada e dez denares, que trazia em um pequeno saco amarrado no pescoço. Era pouco dinheiro, o troco das negociações feitas para seu mestre na vila. A carroça estava perdida, bem como os suprimentos que estavam nela. Sua mula provavelmente estava morta.
Ele colocou as roupas secas enquanto pensava na mulher de olhos azuis. Quem era ela? De onde veio? Que língua estranha era aquela que ela falava?
Ele havia estudado várias línguas nos últimos dois anos: a língua dos elfos e dos anões. Dos mercadores do deserto de Suh Veter e dos gigantes de Vitrovi. Ele era até mesmo capaz de ler e falar a Língua Antiga.
Mas a língua dela era desconhecida. Lembrava em alguma coisa o élfico, mas ele não foi capaz de entender nenhuma palavra.
E os olhos. Os olhos tinham algo de especial. Não apenas pela coloração azul, que não parecia humana, mas principalmente pelo que expressavam: ódio. Ódio e repugnância.
Durante os dois anos em que havia vivido com seu mestre ele aperfeiçoara a arte de ler o olhar das pessoas. Essa arte ele já havia desenvolvido ao longo de toda sua vida como órfão nas docas de Mati Zemlja, a Capital.
"Um órfão deve saber quando ficar quieto quando pedir e quando sumir", ele aprendera bem cedo, nas ruas da cidade, o chefe do grupo de meninos com quem vivia sempre repetia. Ele era mais velho, tinha chegado aos dezoito anos. Um verdadeiro feito para um garoto órfão das ruas.
Nas ruas ele aprendeu a usar uma espada - na verdade um pedaço de pau - para não apanhar dos meninos mais velhos ou da guarda. Aprendera a ficar em silêncio, aprendera a assobiar como um pássaro. Aprendera a caçar gatos, ratos e a furtar pequenas moedas. Mas, acima de tudo, aprendera a observar.
Observar. De tudo que tinha aprendido até ali, observar era o mais importante. Palavras do seu Mestre.
Ele nunca esquecera a sua infância. Naquela época já tinha dezesseis anos. Tinha chegado à uma idade perigosa nas ruas. Uma noite estava sentado em um caixote perto da área das tabernas com mais alguns meninos, quando um homem baixo, vestindo roupas de viajante e com uma sacola nas costas atravessou a rua em passos rápidos.
Ele era velho. Deveria ter mais de cinquenta anos e tinha os cabelos ralos e uma barba curta. Andava apoiado em um cajado bem comum. Uma isca perfeita para batedores como ele.
Um dos meninos foi mais rápido e esbarrou no velho entre as pessoas que ali passavam. Trabalho fácil. Alguns segundos depois ele exibia uma sacola de moedas e um sorriso amarelo no rosto.
Quando o velho se sentou na mesa e pediu comida e cerveja, notou, assombrado, que sua pequena bolsa de moedas havia desaparecido. Assustado, nem reparou o jovem de pé ao seu lado.
Ele segurava a bolsa de couro, e a estendeu para o velho com uma expressão séria.
-Tome senhor. É sua.
O velho pareceu confuso, e quis saber onde o rapaz tinha conseguido as moedas.
-Peguei de um menino que pegou ela do senhor. Só vim devolver.
E se virou e começou a ir embora.
-"Espere garoto. Volte aqui". Disse o velho. "Por que você veio me devolver o dinheiro"?
O rapaz olhou sério para o velho. Seu corpo tremia um pouco. Parecia tentar esconder o nervosismo.
-Ele pode ser um idiota senhor, mas eu não roubaria o dinheiro de um bruxo. Traz má sorte.
E saiu correndo da taberna.
Mais tarde, naquela mesma noite enquanto dormia entre os sacos de lona abandonados nas docas, os outros meninos o cercaram. As moedas eram deles, e ele havia jogado fora a comida da semana. Era hora de pagar.
No fundo ele já esperava por isso. Sacou o bastão que usava como arma e partiu para cima dos meninos. Eram cinco, e também estavam armados com pedras e paus. Até hoje ele exibia uma cicatriz em cima do olho esquerdo que conseguiu naquela noite com orgulho.
Quando dois deles o estavam segurando e um terceiro o estava espancando - os outros dois estavam no chão, se contorcendo - ele pensou no mago. Em como transformaria todos em sapo se pudesse, ou então cuspiria bolas de fogo em todos.
Os meninos não estavam brincando. Iam espanca-lo até a morte.
Foi então que ele ouviu um grande estouro atrás dele, e os meninos, assustados, o largaram. Poucos metros à frente, uma figura negra e com mais de dois metros e olhos em chama gargalhava em alto e bom som.
Em pânico, os meninos fugiram gritando. Mas não ele. Ele ficou de pé, até que o mago voltasse à sua forma humana.
O velho parou à sua frente. Braços cruzados.
-"Você não tem medo"? Perguntou.
Ele fez que não com a cabeça. Seu nariz sangrava um pouco e as lágrimas escorriam de seus olhos. Ele fungava, mais pelo orgulho ferido do que pelos machucados.
-Por quê?
Ele limpou o nariz com a manga da camisa e enfiou a mão no bolso. Estendeu para o mago uma moeda de cobre, um denar.
-Guardei essa aqui. Sabia que o senhor ia querer de volta.
O velho pareceu surpreso.
-E por que eu viria atrás de uma única moeda, menino?
O menino sorriu. Um sorriso sincero de alguém que nunca teve muitos motivos para sorrir.
-Ninguém ia gostar de perder uma moeda mágica, não é?
O velho riu.
-Filho, essa moeda não é mágica. É um denar comum, como todos os outros.
O garoto ficou sério. Coçou a cabeça e disse um pouco envergonhado.
-Foi mágica para mim. Me trouxe o que eu mais precisava: um mago.
Os dois se olharam por alguns instantes. Nunca ninguém tinha olhado assim para o menino em toda a sua vida de órfão.
-Foi mágica para mim também. Trouxe o que eu mais precisava. Qual o seu nome, garoto?
-"Alephi, senhor", ele sussurrou na caverna. Enquanto adormecia com a moeda de cobre em sua mão.
-É um prazer conhecê-lo, meu aprendiz.
O sol brilhava alto no céu quando ele acordou e saiu da caverna. A estação das chuvas deveria continuar por mais algumas semanas, mas aquela seria uma manhã de trégua.
Ali tudo parecia calmo, mas seria tolice retornar à Torre. A melhor opção seria procurar o vilarejo mais próximo. A questão era se deveria ir pela estrada principal - um caminho muito mais rápido - ou pelo bosque - o que levaria muito mais tempo.
Ele bebeu um pouco de água do riacho. A fome não era um problema. Já ficara muito mais tempo sem comer. Ali perto havia uma pequena colina que poderia servir como ponto de observação. Hora de escalar.
Lá de cima ele pôde ver a Torre. A fumaça havia se dissipado, e era possível observar os escombros. Uma visão lamentável. Ao oeste, a pequena estrada de terra batida seguia sinuosa. Nenhum sinal da mulher de olhos azuis.
Ao longe uma carroça seguia pela estrada. Ia à direção do vilarejo, sem dúvida. Dali ele pôde ver que era um carroção fechado e pintado em cores vivas. Provavelmente uma trupe de artistas, um grupo de ciganos ou de prodajalci, que sempre traziam remédios, velhos livros ou doces para vender.
Era perigoso, mas com certeza muito melhor do que ir caminhando por entre as árvores.
Ele desceu o mais rápido que pôde. Era melhor do que ficar ali e esperar.
Correu em direção à estrada e se escondeu atrás de um grande tronco caído. Não queria assustar os viajantes, mas também não podia ficar exposto.
O som das rodas e dos cascos foi se aproximando cada vez mais. Até que, subitamente, parou perto do local onde ele estava.
-"Bom dia, viajante". Ele ouviu uma voz clara e alegre. "Pode sair desse esconderijo patético. Eu não ofereço ameaça nem tenho ouro. Então vamos logo com isso".
Ele se levantou, calmamente. Deixou as mãos à mostra e fez a sua melhor cara de inocente.
-"Desculpe. Eu não quis assustá-la, moça. Mas preciso de uma carona para o vilarejo mais próximo. Posso pagar".
Ela baixou seu capuz. Ele não pôde deixar de se surpreender. Era muito, muito branca. Seus cabelos caíam em longos anéis ruivos. E os olhos verdes eram grandes e brilhantes.
Ela riu. Uma risada límpida e alta.
-Suba amigo. Estou mesmo indo para lá.
Ele subiu, meio sem graça e sentou do lado dela. Evitou ficar encarando. Com certeza deveria estar vermelho de vergonha.
-Eu me chamo Niksa, viajante. Como você se chama?
-"Wilfred", ele respondeu, usando o primeiro nome que veio à mente. "Desculpe o susto. Os últimos dias foram um pouco estranhos".
-Nem me diga Will. Mas o sol sairá em breve. E tudo fica bem com o sol brilhando lá em cima.
A voz dela era doce. Não era exatamente sensual, mas um misto de alegria e inocência. Bem próximo da sensação que tinha quando bebia o hidromel feito por seu mestre.
-Você não é uma cigana. Por que está viajando?
Ela pareceu genuinamente surpresa.
-Como sabe que não sou uma cigana?
-Os ciganos são mais morenos. Nunca vi um com cabelos de fogo.
A risada dela ressoou por toda a estrada.
-E você já viu muitos ciganos, Will?
-Muitos. São muito comuns na estrada. E também na Capital.
Ela pareceu pensar por um segundo. Ele achou engraçado como ela colocava a ponta do dedo indicador no queixo enquanto pensava.
-Verdade. Eu não sou uma cigana. Nem uma vendedora. Faço um pouco de tudo.
Ele a olhou com uma expressão confusa. Ela deve ter entendido errado, porque segundos depois corou e disse um pouco constrangida.
-Não. Não. Não é o que você está pensando. Eu viajo pelas cidades. Vendo elixires. Realizo tratamentos e faço pequenas cirurgias. Canto e interpreto também. De onde venho somos chamados de brivici.
-Acho que já ouvi falar. Já conheci um na Capital. E meu mestre costumava dizer que não passavam de.
Ela riu de novo. Ele achou esquisito o fato de ela rir o tempo todo.
-Charlatões? Já ouvi coisas piores.
-Desculpe. Não quis ofender.
-Você se desculpa demais, Will. Não. Não se desculpe de novo. Viu? Não tem problema nenhum. Muitos pensam isso de nós. Sabe o que meu mestre costumava dizer? "Ganha-se a vida". É o que ele dizia.
Enquanto viajavam lentamente pela estrada de chão batido ele observava o bosque. Tinha passado dois anos ali, e agora teria que ir embora. A Torre não estava mais ali. Seu mestre se fora. Um inimigo rondava a área. Não tinha a menor ideia do que faria dali em diante.
-Não fique com esse olhar triste, Will. Quer ouvir uma música? Ajuda nessas horas. Segure a rédea, Assi pode ser um pouco teimoso, às vezes.
Ela pegou um bandolim que carregava, ensaiou um sorriso um pouco maroto, limpou a garganta e disse:
-Essa se chama "a balada da ruiva e do viajante triste". É uma história sobre um jovem viajante que encontra uma bela jovem ruiva em uma carroça numa estrada. Bem, talvez ela não seja mais tão jovem assim, mas gosta de pensar que é. Quer ouvir?
Ele respondeu que sim, rindo alto. Seu primeiro riso em dias. Ela começou a cantar. Sua voz não era tão bela quanto ele tinha imaginado, mas era límpida e alta.
-"Era uma vez uma bela jovem ruiva. Ela seguia pela estrada. O sol brilhava em seu rosto. E ela não pensava em mais nada". Está rimando, viu?
-"O sol brilhava nas suas madeixas. Sua barriga roncou de fome. E tudo que ela queria eram ameixas".
-É. Está rimando. Nada mal.
-"Ela parou de repente. Olhou para a estrada com atenção. E viu alguém se escondendo em um tronco à sua frente. Poderia ser um rufião ".
-Imagino quem seja.
-"Ela achou estranho. Aquilo não poderia ser verdade. Como alguém poderia tentar se esconder em um tronco daquele tamanho? Não tinha a menor habilidade".
-Ei!
-"Mas ela disse 'bom dia'. Chamou-o para subir na carroça. Ele fez uma cara de. hã. pia. Mas não negou um sorriso à moça".
-"Pia"?
-Quieto. Não dá para acertar tudo. "Ele subiu, educado. Ela sorriu um sorriso polido. Parecia um pouco desastrado. Mas ela o achou bem bonito".
-"Essa parte ficou muito boa", disse. E percebeu que um peso tinha sido retirado das suas costas. Talvez ela tivesse razão. A música era boa e o sol havia voltado.
-"Ele perguntou sobre ela. Queria saber o que fazia. Ela contou um pouquinho. E ele tudo ouvia".
A carroça seguia sem alterar sua velocidade. Ele nem mesmo olhava a estrada. Só tinha olhos para ela.
-"Eles conversaram um pouco por ali. Ela se chamava Niksa.".
-Ei. Dessa vez não rimou.
-"Ele era um alquimista. E se chamava Alephi".
O aprendiz não poderia estar longe. Ele estava ferido. Não muito, mas estava. Estava sem provisões e sem transporte. Não poderia ter ido muito longe.
Foi um golpe de sorte - ou de azar. Ela tinha revirado aquela maldita torre durante três dias. Três malditos dias, e nada. Nenhum sinal do livro. O Mojster, como sua mestra o chamava. O Livro-dos-mestres.
E então ela saiu para averiguar o acampamento, e quando voltou o aprendiz estava lá, de pé, com o livro nas mãos. Era muita sorte. Ele parecia um idiota fraco. E realmente era.
Mas ele tinha dado sorte. Sorte demais. Ela quase acreditava que os Deuses estavam colocando seu dedo naquilo. Mas Sestra não a trairia assim. Ela era sua filha, e uma mãe nunca trairia suas filhas.
Ela tinha procurado o aprendiz por todos os lados. Tinha procurado atrás de cada árvore do bosque, em cada buraco que encontrou. Ele havia sumido. Como?
Seria possível que ele tivesse usado uma das fórmulas do livro? Não. Era impossível. Ele era um alquimista e não um mago. Precisava de seu laboratório para preparar suas poções. E mesmo que tivesse um laboratório, ele era apenas um iniciante. Sem seu mestre, nunca faria nada de útil com o livro.
Tanto conhecimento nas mãos de um incapaz. Chegava a ser triste.
Ela respirou fundo e sentou em uma pedra cinzenta. Ali tinha sido o salão principal da torre de Iskanje. Agora era só lixo. Tinha que pensar em um plano.
Àquela hora, provavelmente seus dois irmãos já deveria estar de volta à Sarce Vode, seu lar no meio do mar interno. Ela não poderia se atrasar mais, mas não poderia voltar para sua amada maceha sem ter cumprido sua missão.
O que fazer? Ela não conhecia nenhum feitiço de localização. Não era uma caçadora como sua irmã. Nem combatente como seu irmão. Era uma feiticeira negra. Uma sacerdotisa de Sereberna, a senhora prateada.
Sua arte era matar, não caçar.
Ao longe ela escutou as correntes do seu prisioneiro. Ele ainda se debatia. Não tinha comido por três dias, mas ainda tinha forças para tentar escapar. Mas as correntes prateadas eram fortes. Ele ficaria ali enquanto ela quisesse.
Não que ela desejasse isso. Se dependesse da sua vontade, ele estaria morto. Ela o teria amarrado em uma árvore e ateado fogo. Nele, na Torre, no bosque e no resto mundo. Ele queimaria como os outros haviam queimado.
Mas não. Sua maceha tinha dado ordens claras. Derrubar a torre. Capturar o mestre alquimista. Trazer de volta o livro. Matar qualquer um que se intrometesse nos seus assuntos.
Então ela havia cumprido sua missão, como sempre. Ela tinha levado os dois pergaminhos que sua maceha havia dado: o primeiro derrubou a torre com um estrondo. O feitiço dos devoradores.
Em todos os seus anos de prática ela nunca havia visto nada igual. No caminho do aprendizado ela vira sombras e escuridão. Morte e ressurreição. Noventa nomes e noventa e nove palavras de poder. Mas, mesmo durantes seus estudos, o feitiço dos devoradores era apenas uma lenda.
Até ler as palavras no pergaminho.
Tanto poder contido em palavras. O conhecimento de sua mestra não conhecia limites.
O segundo pergaminho deu cabo do mestre alquimista. Ele nem mesmo teve tempo de tentar se defender. Esse era o mal dos humanos. Sempre acham que são poderosos o suficiente para estarem seguros. Tolos.
Mas o aprendiz era um fator inesperado. Ela tinha imaginado que encontraria um ou dois aprendizes, o que não seria um problema. E estava certa. Ele deveria ter morrido facilmente, mas tinha sido covarde o suficiente para fugir e abandonar seu mestre.
Ela avaliou as possibilidades. Poderia sair em sua caça e tentar encontrar seu rastro. Poderia voltar para sua mestra e pedir a ajuda de seus irmãos. Poderia queimar todo o bosque e esperar que o aprendiz queimasse.
Não. Nenhuma das opções serviria. Ela abaixou a cabeça e passou os dedos negros pela longa cabeleira prateada. Estava cansada. Cansada demais.
O prisioneiro forçou as correntes novamente. O barulho a irritava. O barulho e o seu fedor. Teve que contar até dez para não levantar e fincar o sabre no seu coração. Como se não bastasse ter que aturar a companhia de tal besta, ainda era obrigada a aguentar o cheiro repugnante.
Ela se levantou com um salto. Era isso.
Saiu dos escombros da torre em passos rápidos. Seus pés leves de elfo mal moviam a grama. Em poucos segundos estava no acampamento.
Ao lado do que sobrara da sua fogueira, a besta estava agachada. Continuava acorrentada a uma árvore, embora não tivesse se acalmado. Seu pelo negro estava eriçado e seus olhos vermelhos estavam vidrados. Com os dentes afiados e as garras ele tentava arrancar as correntes. A cauda comprida estava enroscada no corpo. Parecia faminto. E perigoso.
Se o soltasse, provavelmente seria atacada. Coisas como aquela atacavam tudo que fosse vivo. Viviam para comer e caçar.
Caçar.
Ela se aproximou calmamente. A criatura tentou atacar, mas foi retida pela corrente com um forte solavanco. O fedor da podridão que suas mandíbulas exalava era enojante. Moscas zumbiam ao seu redor.
Ela sacou sua espada e apontou para a besta. Esta pareceu não se importar. Estava muito além da razão. O feitiço era perfeito.
-"Sente o cheiro do sangue?", ela perguntou na sua língua, apontando a ponta da lâmina perto do focinho da besta. "Encontre-o para mim".
-Traga-me seu aprendiz.
A única coisa que ele conseguia pensar naquele momento era que mesmo com a lâmina da sua espada na garganta e com os olhos arregalados de medo ela continuava linda.
E que os cabelos vermelhos tinham um perfume maravilhoso.
Ele tinha sacado a espada o mais rápido que pôde – e isso era muito rápido – e colocado no pescoço dela. Isso tinha acontecido há apenas alguns minutos, mas parecia um tempo bem maior.
Niksa tinha tremido com o movimento brusco dele. Assi, contudo, continuava trotando pela estrada. Alephi a olhava tentando compreender, tentando ler algo nos olhos dela, mas não havia nada.
Apenas medo.
Isso só poderia significar duas coisas: ou ela estava realmente assustada ou era muito bem treinada.
Ele queria acreditar que era apenas medo. Seria um desperdício que uma mulher tão linda fosse uma inimiga. Mas os últimos dias tinham sido bem estranhos.
O melhor era não arriscar.
Ela não tinha dito nada. Apenas soltado um pequeno grito que foi abafado.
-Quem é você mulher? Quem a mandou? Onde está meu mestre?
-Calma Al...
-Você está com a Mulher de Olhos Azuis? Onde ela está?
Mas ela não respondeu nada. Parecia apenas estar em pânico.
Ele comprimiu um pouco mais a lâmina no pescoço dela. Não suficiente para cortar. Ela tinha um pescoço tão longo e tão branco. Sua pele parecia leite fresco.
-Eu não vou perguntar de novo. Quem é você?
Então os olhos dela se arregalaram. O primeiro pensamento dele foi que seria impossível os olhos dela se arregalarem ainda mais.
O segundo foi que eles eram realmente lindos.
Ela abriu a boca e soltou um murmúrio gago:
-Ra-to.
-O quê?
-Rato. Tem um rato gigante ali.
Ele se virou o mais rápido que pôde. Era o truque mais velho do mundo. No momento em que se virou ele teve certeza que ela a atingiria pelas costas. E depois fugiria com quaisquer segredos e respostas que tivesse.
Mas não. Realmente havia um rato gigante ali.
Não era propriamente um rato. A criatura estava em pé sobre duas patas, mas tinha focinhos e garras e uma cauda. O corpo era coberto de pelos escuros e os olhos tinham um estranho brilho avermelhado. Deveria ter quase um metro e oitenta.
A criatura descia uma colina na direção da carroça. Assi empinou nervoso, tentando escapar. Alephi soltou a mulher e pulou para o solo, espada ainda em punho. Era tudo que tinha para se defender.
Quando estava a pouco mais de dois metros de distância Alephi teve certeza que podia sentir o fedor da criatura. Ela estava salivando. Alephi preparou a espada com as duas mãos, esperando o impacto. Exatamente como seu Mestre havia ensinado: usar o peso do adversário como alavanca. Cortar o mais fundo que puder. Não pensar.
Foi então que a flecha atingiu o homem-rato. Tudo foi tão rápido que Alephi nem mesmo se preocupou em olhar de onde vinha. Aproveitou que a criatura desacelerou, caindo para o lado com a surpresa da flecha, e avançou, atacando com a espada em um arco lateral.
O rato soltou um guincho de dor quando a espada atingiu seu braço. O membro pendia apenas por uma fina camada de pele e osso.
“Bela zeleza” lembrou. O aço branco alquímico. Não havia corte mais fino.
Ele preparou a espada. O rato começou a circulá-lo. Parecia sofrer. Parecia raivoso. Sua boca espumava enquanto o sangue jorrava do corte.
O que aquela criatura fazia ali? Não era comum que esses seres caminhassem á luz do dia. Nem por aquela área. Eram criaturas das sombras. Os Skrites, como eram chamados nas Terras da Sombra de Smirt ou nas Terras de Kaos.
Enquanto sua mente vagava a criatura atacou. “Erro básico”, Alephi pensou. “Nunca pense”, dizia seu Mestre. “Aja”.
Ele tentou se defender com a espada, mas não foi rápido o bastante. Os dois se atracaram e caíram no chão, rolando pela grama. A espada caiu longe da sua mão, e ele tentava, com muito esforço, segurar a criatura.
Se ela o mordesse tudo estaria acabado. A saliva pingava no seu rosto. O hálito era horrível.
Quando seus braços chegaram à exaustão Alephi usou a pouca força que restava para tentar erguer a cabeça do rato. Um esforço inútil. Era o fim.
Então outra flecha acertou o homem-rato. Dessa vez no olho direito. A criatura não teve nem tempo de guinchar e tombou para o lado.
Alephi sentou aos poucos. Estava exausto. Olhou para a carroça e viu Niksa de pé, com uma besta nas mãos. Parecia ofegante de nervoso.
-Ele morreu?
Ele respirou fundo antes de falar. As palavras saiam com dificuldade.
-Sim. Morto.
Ela pareceu se acalmar.
-Te devo uma Nikki.
A mulher sorriu. Parecia aliviada.
-Tudo bem. Eu não gosto de ratos. Tenho pavor, na verdade. De onde esse saiu?
Alephi levantou aos poucos e pegou a espada. Colocou-a na bainha e voltou para a carroça com passos lentos.
-Provavelmente estava com a Mulher de Olhos Azuis. Nós temos que ir embora daqui. Agora.
Ela arregalou os olhos mais uma vez – era impressionante a facilidade com que conseguia fazer isso – e apontou para o corpo do rato.
Ele não teve nem mesmo força para se virar e olhar o corpo. Estava cansado demais.
-O que foi? Não me diga que ele está voltando à vida.
-Está virando um homem.
Alephi se virou e correu para os restos da criatura. Ajoelhou ao lado com dificuldade e examinou o homem.
-“Você o conhece”? Ela perguntou.
Ele olhou com cuidado e tocou o rosto do homem morto.
-Não. Nunca o vi na vida.
Ele se sentiu um pouco culpado por ter deixado o corpo do desconhecido na beira da estrada. Lá no fundo ele sabia que deveria ter enterrado o infeliz, mas não havia tempo.
A carroça seguia rangendo pela estrada de terra e a dupla seguia em silêncio. Ele não teve coragem de perguntar para Niksa como ela sabia o seu nome. Também não teve coragem de pedir desculpas por ter colocado a espada no seu pescoço.
Ela tinha salvado sua vida. Como se não bastasse ser linda, ela ainda tinha salvado sua vida.
Esse era o tipo de coisa que ele tinha aprendido na rua: você sempre precisa pagar suas dívidas. Se alguém ajuda você, você ajuda de volta. Se alguém te acerta, você faz o mesmo, só que com mais força.
Foi ela quem quebrou o silêncio.
-Então Al, nós vamos ficar nesse clima chato até a vila mais próxima?
Ele teve certeza absoluta que estava vermelho.
-Sério. Porque já tive viagens mais animadas apenas conversando com Assi. E ele não é muito bom de conversa, sabe? Sem ofensas, Assi.
O animal não pareceu se importar.
-Você tem razão. Desculpe. Eu não deveria ter te ameaçado. Mas eu tive uns dias bem estranhos, sabe?
Ela riu. Ela sempre ria.
-Imagino. Alguma coisa pior do que o rato gigante de hoje?
-Você nem tem ideia.
-Então por que não me conta. Está anoitecendo, e só chegaremos à vila quando a lua estiver alta no céu.
Ele respirou fundo. Por que não?
Quando a lua estava realmente alta no céu ele terminou de contar a sua história. Ela tinha ouvido cada palavra sem interromper, a não ser para perguntar sobre os detalhes. Era bom tirar o peso dos ombros.
-Nossa. Você não estava exagerando hein? Mas e agora? O que vai fazer?
-Sinceramente eu não tenho a menor ideia. Acho que vou me hospedar na estalagem, comer alguma coisa e descansar. Depois vou procurar alguma pista sobre meu Mestre.
Ela pareceu um pouco séria, o que era bem raro.
-E você acha que ele ainda está vivo?
Ele parou e ponderou por alguns instantes. Seu mestre era um homem sábio. Um grande alquimista que conhecia segredos desconhecidos para muitos. Não seria uma presa fácil.
-Tenho certeza que sim.
-Mesmo com a torre derrubada?
-Mesmo assim. Se eu não encontrei seu corpo, ele com certeza está escondido. E eu vou encontrá-lo. Devo isso a ele. É a minha única família.
-Entendo. Bem, eu desejo toda a sorte do mundo a você Al. A você e a quem tentar te impedir de encontrar seu mestre.
-Como assim?
Ela gargalhou alto dessa vez.
-Ora, eu vi como você sabe usar essa espada. Não gostaria de estar na pele de quem quer que entre no seu caminho.
Agora foi a vez dele de rir. Mas foi um riso amargo. Em breve chegariam ao vilarejo e seus caminhos se separariam. Por mais estranho que fosse, ele sentiria sua falta dela.
-E você? Quais são seus planos?
-Ah, nós brivicis somos mercadores. Vivemos pra lá e para cá. Eu provavelmente vou fazer uma ou duas apresentações na vila, vender uns elixires e depois vou partir. Talvez para a Capital.
-Você falou antes desse elixir. O que ele faz?
-Sério? Você é um alquimista? Quer mesmo me humilhar perguntando o que o meu mísero elixir faz?
-Sério.
Ela pareceu um pouco triste e sorriu um sorriso amarelo. O primeiro assim que ele tinha visto naquele rosto tão bonito.
-Não faz quase nada Al. É quase todo álcool e alguma ervas para dar gosto. As pessoas acreditam que funcionam, e algumas até se curam. Mas, na verdade, não passa de uma enganação.
-E você não se sente mal por enganar as pessoas?
-Na verdade não. As cirurgias que eu faço são reais. Os espetáculos e as músicas também. E meu mestre dizia que muitas pessoas sofrem de doenças do espírito, e que a crença no elixir as cura. Talvez ele esteja certo.
Ali os sons e odores do vilarejo chegavam. Mais alguns minutos e chegariam ao seu destino.
Ele meditou sobre aquilo por alguns minutos. “Pagar as dívidas”, pensou. Buscar o equilíbrio. Curar o espírito e o corpo.
Por que não?
-Pare a carroça.
-“Por quê? Outro rato gigante?” disse assustada.
Ele saltou e foi até as árvores do bosque. Voltou com um punhado de ervas e algumas pequenas frutas vermelhas.
-Conhece essas ervas?
-Claro. São bem comuns, Na verdade são quase uma praga na região.
-Isso. E essa fruta? Chama-se sadiji krivi.
-Claro. É uma amora doce. Comi muitas no caminho.
Ele foi até a carroça, pegou um frasco e esvaziou no chão.
-Ei. Ei. Isso custa caro.
-Quieta mulher. Preste atenção.
Ele a ensinou como esmagar as frutas e as ervas e como curti-las em álcool.
-Faça isso na primeira noite de lua nova. Deixe assim por dois dias.
Ela prestava atenção em silêncio.
-O que é isso?
-Um elixir de verdade, Nikki. Ele realmente cura feridas e algumas doenças. Nada muito grave, mas funciona. Foi a primeira poção que aprendi.
Ela o olhou com uma expressão estranha. Mais uma vez ele percebeu como era incapaz de ler os seus olhos. Mas ele nunca tinha visto um sorriso tão alegre.
-Obrigada.
Seguiram o restante do caminho em silêncio, novamente. O vilarejo era pequeno e tinha os cheiros comuns das vilas: lama, urina, cerveja e bosta de cavalo. Era quase como voltar para casa, ele pensou.
Ele saltou da carroça e olhou para a mulher. O sorriso ainda estava estampado no seu lindo rosto.
-Foi muito especial conhecer você Al. Obrigada por tudo.
-Não. Eu é que agradeço. Pela carona. Pela música e por ter salvado a minha vida.
Ela se inclinou sobre ele. Seu rosto chegou perto do dele, tão próximo que ele era capaz de sentir seu hálito. E o cheiro dos cabelos de fogo.
Ele sentiu sua pele se arrepiar. Um pequeno choque subiu pela sua espinha.
-“Sabe Al”, ela sussurrou no seu ouvido. “Tem uma coisa que eu queria te dizer desde que nos encontramos”.
Ele tentou perguntar o que era, mas a voz não saía. A língua dela quase tocou sua orelha.
-Tem uma mulher naquela taberna que quer te matar.
Ele parou diante do pesado portão de bronze. Dali podia ver o tamanho real da construção. Nunca tinha visto nada igual.
O vento gelado açoitava os portões, com seu uivo alto e solitário. Ele não se movia. A neve e o frio não o incomodavam.
Ao seu lado, a neve manchada de sangue brilhava sob a fraca luz do sol pálido que atravessava o céu encoberto.
Ele estava parado ali há alguns minutos. Esperava pacientemente a troca da guarda. Não se movia.
Aos poucos sua armadura negra ia sendo soterrada pela neve. Homens mais fracos estariam tremendo com o frio enquanto morriam, mas ele permanecia de pé.
Seus olhos azuis permaneciam fixos. O portão se abriria em breve.
Ele estava certo. Pouco tempo depois escutou o rangido do bronze, e pouco a pouco o enorme portão começou a se mover. Lá dentro, o gigante empurrava o maquinário com sua força sobrenatural.
Ele estudou a criatura. Os velikans, os gigantes das colinas nevadas eram criaturas com cerca de sete metros. Sua pele era de um tom azul pálido e suas barbas e cabelos eram brancos. Este usava uma armadura de escamas cinzenta e carregava um enorme machado nas costas.
“Uma presa fácil”, pensou.
Não demorou muito até que a criatura visse os corpos de seus dois colegas. Ambos estavam caídos na neve, cobertos de sangue. O gigante pareceu surpreso, e olhou ao redor.
Levou um minuto até perceber o pequeno homem com armadura negra ali parado. Com certeza, aos olhos da criatura, ele parecia uma pequena estátua. Coberta de neve e gelo.
O gigante ergueu o grande machado e gritou alguma coisa na língua dos gigantes. Ele não se lembrava de como essa língua se chamava nem sabia pronunciá-la, mas teve certeza do seu significado.
Aguardou. A espada em punho. O escudo preso nas costas.
A criatura atacou, girando o machado com força. Ele já tinha ouvido falar da enorme força dos gigantes. Eram seres capazes de levantar grandes pedras, arrancar árvores do chão ou mesmo destruir castelos com seus próprios punhos.
Diziam que não sentiam frio e que se você fosse tocado por um, congelaria em poucos minutos.
E diziam que eram grandes guerreiros. Viviam dois séculos e muitos desses anos eram dedicados à arte da batalha.
Tudo isso ele pensou enquanto o gigante se aproximava, brandindo o machado.
Ele esperou ficarem frente a frente, se agachou e rolou por entre as pernas do gigante. Com um movimento rápido, cortou o calcanhar direito com a espada.
O gigante caiu no chão coberto de neve, com um grande urro de dor.
Ele se aproximou e fincou sua lâmina nas costas do gigante. “Menos três”, pensou.
Dentro da fortaleza, ele sabia, havia cerca de mais três. Seis era um número sagrado para os velikans, e os solos sagrados eram sempre protegidos por seis guardas. Números, números e mais números.
Ele odiava números.
Odiava letras também. Sua maceha tinha tentado ensiná-las desde que era uma criança, mas ele não tinha conseguido aprender. Então, depois de muitas e muitas tentativas, ela disse que ele possuía uma doença chamada disleksija, e que nunca aprenderia a ler nem escrever.
Mas ela lia histórias para ele, quando era criança. Não as adorava, exceto pelas histórias de dragões. Sempre quis ter um dragão.
Ele não se importava em não saber ler. Sobrava mais tempo para treinar com a espada. Enquanto suas irmãs estudavam, ele treinava. Durante anos e anos ele treinou. Lança e escudo. Arco e machado. Adaga e bastão. E principalmente a espada.
Anos e anos de treinamento, e ainda havia tanto a aprender.
Sua maceha nunca criticou por isso. Ao contrário, sempre o incentivou a aprender a lutar. E ele aprendeu tudo o que pôde.
Quando se tornou um homem, ela o presenteou com uma espada branca. Feita de bela zeleza, sob medida. Uma espada que o tonaria um guerreiro lendário, ela disse.
Mas não. Ele não procurava se tornar uma lenda. Lendas eram escritas, e ele detestava as palavras. Detestava lendas, exceto as de dragões. Não desejava ser uma lenda. Desejava apenas um dragão, e isso nem sua maceha poderia dar.
E, além do dragão, ele desejava vingança.
Ergueu-se e caminhou em direção à entrada. Após os portões um grande salão iluminado por tochas permanecia vazio. O chão era de mármore e uma grande abóbada era sustentada por seis colunas brancas.
No centro, uma estátua de Oce Viseh, o Pai dos Gigantes segurava uma lança. Era talhada em mármore branco e segurava presa entre o indicador e polegar, uma pequena esfera de cristal azul clara, do tamanho de uma maçã.
Ele havia encontrado: a pedra fundamental do reino de Veter. Sua missão estava quase cumprida. Esperava que suas irmãs tivessem conseguido cumprir sua parte também.
Então ele ouviu os passos e viu os gigantes se aproximarem. Mais três, exatamente como ele havia previsto.
Fácil demais.
Ele ergueu sua espada e se preparou para atacar, mas então percebeu que um dos gigantes não estava armado. A criatura estava parada diante de uma corrente que subia até o teto do edifício e descia novamente, ligando-se a uma enorme grade no chão. Com um grande puxão, a grade se abriu.
E, das profundezas do poço, o dragão surgiu.
Não tinha a menor ideia de como os gigantes o tinham conseguido. Não era um dragão adulto, mas um bem jovem, com cerca de quinze anos. Tinha cerca de seis ou sete metros e suas escamas eram um misto de branco e prateado. Seus olhos eram de um azul profundo, como os seus.
Um dragão prateado.
Deveria estar faminto e assustado, o que era terrivelmente perigoso em um dragão. Em tais situações, ele sabia, eles atacavam tudo o que se movia.
Ele tirou o elmo e olhou fixamente para a criatura. Os gigantes pareceram surpresos. Com certeza nunca tinham visto um elfo negro. Estavam todos extintos.
O dragão avançou em sua direção, urrando. Suas garras arranhavam o chão e suas asas derrubavam tudo ao redor.
O elfo negro sorriu.
Sempre quis ter um dragão.
CAPÍTULO 4
Ali nada se movia. A sua volta os escombros do antigo salão estavam cobertos de poeira e teias de aranha. Mas mesmo estas haviam morrido muito tempo atrás. Agora, os únicos habitantes do grande salão de Pozabljivost eram os esqueletos apodrecidos e suas armaduras velhas e enferrujadas.
E ele. Ele ainda estava lá. Sempre estaria.
Houve um tempo em que seu nome era Wodan. Mas isso foi muito tempo atrás. Nessa época ele era apenas um soldado dos exércitos das terras Da. Não um cavaleiro nem um Strokovnjak Vrtalec, os famosos lanceiros de Da, mas apenas um peão nos grandes Exércitos Retangulares, como eram conhecidos mundo afora.
Nessa época ele carregava sua lança e armadura. Dava de comer e beber aos cavalos. Com um pouco de sorte fazia o serviço de carregador. Fazia parte dos baixos polnilec, rapazes que carregavam feno. Era um cargo ruim, mas havia comida.
E ele aprendeu muito. Era capaz de caçar, Capturar e criar animais.
Nesse tempo ele era chamado de pai.
Foi no final do outono, muito tempo atrás. Ele estava no exército há um ano. Ela era uma camponesa que ele conheceu em um dos ataques com o Exército Retangular a um vilarejo vizinho. Eram épocas de guerra e ele não se preocupou com o nome dela.
Assim era a vida de soldado. Algumas noites frias precisavam ser aquecidas.
Dois anos depois, ao retornar ao vilarejo, ele foi recebido por uma menina de cabelos escuros encaracolados e nariz escorrendo. Era órfã, pois a mãe tinha morrido no parto. Soldados não costumavam acolher nem criar seus Nocni Trofeje, mas ela tinha os olhos dele.
Ele saiu da vila e pediu baixa do exército. Um mero carregador de feno não faria falta nos exércitos do Reino, e mudou para uma vila longe da guerra. Uma menina deveria crescer na paz.
Com os poucos denares que tinha juntado, comprou uma pequena casa e alguns porcos. Ele tinha aprendido a cuidar dos animais no exército. Também sabia lutar. Não era nada mal com a lança e o escudo. Não era uma vida ruim. Ele poderia envelhecer ali e Zima crescia a olhos vistos.
Fora do salão, a chuva caía novamente. Tinha chovido muito nos últimos dias, ele tinha percebido. Depois de tanto tempo sentado no escuro, sua audição tinha se apurado de um modo que nem mesmo ele acreditava.
No alto do pináculo, sua prisioneira se mexeu e soltou um longo gemido de dor.
Ele não se moveu. Sabia que ela não poderia escapar dali.
Sua mente vagava por entre aqueles anos de paz. Zima tinha chegado aos quatorze anos. Era, de longe, a menina mais cobiçada do vilarejo, e uma ou duas vezes ele teve que sacudir sua lança para expulsar os jovens que vinham sob a sua janela fazer juras de amor.
A vida era doce.
Ele se sentava na lareira todas as noites para ouvi-la cantar. E ela cantava bem. Nunca seria capaz de viver disso, mas sua voz era rouca e bela. Toda vez que ele a ouvia cantar se lembrava que tudo aquilo tinha valido a pena.
Mas os tempos de paz não duram para sempre. Os alquimistas diziam. o que era mesmo que os alquimistas diziam? Fazia tanto tempo.
Naquele tempo Zima tinha escolhido um pretendente. Era um bom rapaz, filho do oleiro. Tinha herdado o ofício do pai e era honesto e trabalhador. Assim que começou a cortejar a menina, ele aparecia todos os dias pela manhã para oferecer ajuda com os porcos. Era um garoto esperto, ele pensava. Pena que não lembrasse mais do seu nome.
Ele começou a ensinar o rapaz a caçar e capturar animais. Ele era capaz disso.
Mas numa noite de inverno. Por que tudo sempre acontecia nas noites de inverno? Numa noite de inverno eles chegaram. Não soldados de Da. Não assassinos de Quimada. Nem mesmo os antigos gigantes das terras altas de Vitrovi, onde - diziam - todos os habitantes eram maiores do que a lendária Torre de Iskanje.
Não. Eles eram homens-chacais de Kaos. Os Lacno Moski. Os homens famintos.
Ele lutou. Todos lutaram. Tudo que se lembrava era de acordar boiando em um pequeno lago até perceber que a água agora era vermelha.
Não havia mais ninguém. Todos os homens estavam mortos. Todas as crianças e mulheres tinham sido levadas como escravas ou como alimento, pois os Lacno Moski só tinham dois apetites: carne e mulheres.
Ele pegou tudo que ainda possuía e partiu atrás dos rastros. Não eram difíceis de seguir. Depois de três luas ele os encontrou sob uma colina. Eram pouco mais de vinte, e as escravas estavam amarradas pelo pescoço.
Ele sabia como acha-los. Era como caçar um animal. Ele era capaz disso.
Ele desceu a coliga girando sua lança e gritando. Três que estavam no seu caminho morreram na hora. Os demais se uniram ao seu redor, gritando, uivando e salivando. Ele era incapaz de compreender sua língua, mas sabia muito bem o que viria a seguir.
Sua prisioneira se contorceu lentamente. Suas mãos magras seguravam a enorme estaca negra. Ele permaneceu sentado. Eternamente vigilante. Anos e anos ali sentado haviam afastado toda a cãibra que pudesse sentir.
Depois do segundo golpe atingir seu corpo ele compreendeu que nunca mais veria sua filha. Seus olhos negros permaneceriam para sempre em sua mente como a última visão antes da morte.
Então ele ouviu a trombeta. E soube que o Exército Retangular tinha chegado.
Era um pequeno grupo. Cerca de dez homens. Mas nada era capaz de sobreviver àquilo. Nenhum bárbaro armado com um tacape poderia derrotar Cavaleiros em armaduras que montavam enormes cavalos de combate e usavam longas espadas feitas de bela zeleza, o aço branco dos Alquimistas.
"Na natureza tudo busca a morte", diziam os alquimistas. Era isso que eles diziam.
Eles libertaram as escravas e queimaram os corpos. Ele procurou por Zima e não a encontrou. Tremeu como uma criança ao imaginar que sua filha nada mais era do que uma pilha de ossos.
Foi então que a velha curandeira do vilarejo, uma das mulheres que havia sobrevivido contou que Zima tinha fugido com o namorado quando os Homens Famintos chegaram.
Ele voltou para o vilarejo naquela mesma noite. E poucos dias depois começou a procurar por pistas. Ali, em uma caverna escondida na outra margem do lago, ele encontrou os dois. Não foi difícil. Era como caçar um animal. Ele era capaz disso. E também de captura-los e cria-los.
O rapaz tinha machucado o braço na fuga, ao matar um inimigo, mas sua filha tinha sido ferida por uma flecha de sangue. Agora o veneno seguia por seu corpo, e ela viveria muito pouco.
Ela agora dormia o sono daqueles que iriam morrer.
Cansado e frustrado, ele chorou por uma noite. A lua cheia brilhava no céu. Seria lua cheia lá fora hoje? Ele tinha perdido a noção de tempo.
Lá em cima sua prisioneira estava silenciosa, como era na maioria do tempo.
Quando acordou, tinha sonhado com a Lua. Não a lua do céu, mas Sestra, a Senhora Sem Face, que era cultuada pelos elfos de Zivljenje como a Irmã de todos.
Em seu sonho, ela disse que ele devia vagar para o Sul, para as terras vazias de Smrt, onde caminhavam os mortos-que-respiravam. Lá ele encontraria uma Torre Negra, cujo nome não era possível pronunciar em nenhuma língua. Lá ele encontraria a morte.
Se quisesse sua filha de volta ele deveria escalar a torre e enfrentar a morte. Deveria derrota-la e exigir a vida de Zima de volta. Só assim ela viveria, e ele teria outra vez a vida simples e boa que tinha antes.
Ele explicou isso ao rapaz e partiu. Não importava que o achassem louco, mas apenas que a mantivessem viva até ele chegar às terras de Smrt. E assim foi. Seis meses depois ele escalava a Torre com a lança e o escudo em punhos, o olhar ensandecido e apenas uma coisa em mente: trazer sua filha de volta.
Ele sabia que era uma tarefa impossível. Tinha treinado todas as noites durante a viagem, mas mesmo assim nem mesmo nas lendas que escutara do Knjiga Pominov quando criança, nenhum mortal havia matado a morte.
Era impossível matar aquilo que estava morto.
Mas ele era um guerreiro. Era um criador de porcos. Era pai. Ele sabia o que precisava ser feito. Desceu as escadarias sem fim da Torre com armas em punho.
Ele não era um cavaleiro. Não era um Lanceiro. Mas era capaz de caçar e capturar um animal.
Empalada na grande estaca negra, sua prisioneira novamente se mexeu. Mas não adiantaria.
Não até que ela devolvesse a vida da sua filha.
CAPÍTULO 5
Ele mal conseguiu dormir. Embora estivesse exausto e ferido simplesmente não era capaz de fechar os olhos enquanto a mulher dos olhos azuis estivesse lá fora.
Era loucura, com toda certeza. Ele tinha corrido pelo bosque enquanto teve forças para isso. Depois se jogou em um pequeno córrego que encontrou no caminho. Por fim, tinha encontrado uma caverna abandonada e literalmente se arrastado lá para dentro.
Abandonada era o termo exato. Alguma coisa tinha feito aquele buraco de lar até algum tempo atrás. Havia restos de uma fogueira e alguns ossos de animais pequenos. Havia também restos de pano num canto. Cheiravam terrivelmente mal, mas era melhor do que ficar lá fora no frio.
Ele estava tremendo. Resultado do frio da noite e das suas roupas molhadas. Ele não se atrevia a acender uma fogueira. Além da sua caçadora existiam outras coisas no bosque que caminhavam de noite e eram atraídas pela luz. Era melhor ficar quieto.
Enquanto tremia ele tentava organizar os pensamentos. A Torre destruída, seu mestre desaparecido - ou pior - morto. O livro em suas mãos. O ataque de uma desconhecida. Informações demais para sua mente.
Ele olhou o que tinha conseguido recuperar da Torre. Poucas roupas secas, mas que serviriam. Um rolo de corda, um pequeno frasco de poção de cura. O suficiente para um uso. Esse frasco ele nem mesmo se recordava de ter pegado, e com certeza deveria estar no meio das roupas. Um pouco de sorte, para variar.
Fora isso ele tinha apenas a sua espada e dez denares, que trazia em um pequeno saco amarrado no pescoço. Era pouco dinheiro, o troco das negociações feitas para seu mestre na vila. A carroça estava perdida, bem como os suprimentos que estavam nela. Sua mula provavelmente estava morta.
Ele colocou as roupas secas enquanto pensava na mulher de olhos azuis. Quem era ela? De onde veio? Que língua estranha era aquela que ela falava?
Ele havia estudado várias línguas nos últimos dois anos: a língua dos elfos e dos anões. Dos mercadores do deserto de Suh Veter e dos gigantes de Vitrovi. Ele era até mesmo capaz de ler e falar a Língua Antiga.
Mas a língua dela era desconhecida. Lembrava em alguma coisa o élfico, mas ele não foi capaz de entender nenhuma palavra.
E os olhos. Os olhos tinham algo de especial. Não apenas pela coloração azul, que não parecia humana, mas principalmente pelo que expressavam: ódio. Ódio e repugnância.
Durante os dois anos em que havia vivido com seu mestre ele aperfeiçoara a arte de ler o olhar das pessoas. Essa arte ele já havia desenvolvido ao longo de toda sua vida como órfão nas docas de Mati Zemlja, a Capital.
"Um órfão deve saber quando ficar quieto quando pedir e quando sumir", ele aprendera bem cedo, nas ruas da cidade, o chefe do grupo de meninos com quem vivia sempre repetia. Ele era mais velho, tinha chegado aos dezoito anos. Um verdadeiro feito para um garoto órfão das ruas.
Nas ruas ele aprendeu a usar uma espada - na verdade um pedaço de pau - para não apanhar dos meninos mais velhos ou da guarda. Aprendera a ficar em silêncio, aprendera a assobiar como um pássaro. Aprendera a caçar gatos, ratos e a furtar pequenas moedas. Mas, acima de tudo, aprendera a observar.
Observar. De tudo que tinha aprendido até ali, observar era o mais importante. Palavras do seu Mestre.
Ele nunca esquecera a sua infância. Naquela época já tinha dezesseis anos. Tinha chegado à uma idade perigosa nas ruas. Uma noite estava sentado em um caixote perto da área das tabernas com mais alguns meninos, quando um homem baixo, vestindo roupas de viajante e com uma sacola nas costas atravessou a rua em passos rápidos.
Ele era velho. Deveria ter mais de cinquenta anos e tinha os cabelos ralos e uma barba curta. Andava apoiado em um cajado bem comum. Uma isca perfeita para batedores como ele.
Um dos meninos foi mais rápido e esbarrou no velho entre as pessoas que ali passavam. Trabalho fácil. Alguns segundos depois ele exibia uma sacola de moedas e um sorriso amarelo no rosto.
Quando o velho se sentou na mesa e pediu comida e cerveja, notou, assombrado, que sua pequena bolsa de moedas havia desaparecido. Assustado, nem reparou o jovem de pé ao seu lado.
Ele segurava a bolsa de couro, e a estendeu para o velho com uma expressão séria.
-Tome senhor. É sua.
O velho pareceu confuso, e quis saber onde o rapaz tinha conseguido as moedas.
-Peguei de um menino que pegou ela do senhor. Só vim devolver.
E se virou e começou a ir embora.
-"Espere garoto. Volte aqui". Disse o velho. "Por que você veio me devolver o dinheiro"?
O rapaz olhou sério para o velho. Seu corpo tremia um pouco. Parecia tentar esconder o nervosismo.
-Ele pode ser um idiota senhor, mas eu não roubaria o dinheiro de um bruxo. Traz má sorte.
E saiu correndo da taberna.
Mais tarde, naquela mesma noite enquanto dormia entre os sacos de lona abandonados nas docas, os outros meninos o cercaram. As moedas eram deles, e ele havia jogado fora a comida da semana. Era hora de pagar.
No fundo ele já esperava por isso. Sacou o bastão que usava como arma e partiu para cima dos meninos. Eram cinco, e também estavam armados com pedras e paus. Até hoje ele exibia uma cicatriz em cima do olho esquerdo que conseguiu naquela noite com orgulho.
Quando dois deles o estavam segurando e um terceiro o estava espancando - os outros dois estavam no chão, se contorcendo - ele pensou no mago. Em como transformaria todos em sapo se pudesse, ou então cuspiria bolas de fogo em todos.
Os meninos não estavam brincando. Iam espanca-lo até a morte.
Foi então que ele ouviu um grande estouro atrás dele, e os meninos, assustados, o largaram. Poucos metros à frente, uma figura negra e com mais de dois metros e olhos em chama gargalhava em alto e bom som.
Em pânico, os meninos fugiram gritando. Mas não ele. Ele ficou de pé, até que o mago voltasse à sua forma humana.
O velho parou à sua frente. Braços cruzados.
-"Você não tem medo"? Perguntou.
Ele fez que não com a cabeça. Seu nariz sangrava um pouco e as lágrimas escorriam de seus olhos. Ele fungava, mais pelo orgulho ferido do que pelos machucados.
-Por quê?
Ele limpou o nariz com a manga da camisa e enfiou a mão no bolso. Estendeu para o mago uma moeda de cobre, um denar.
-Guardei essa aqui. Sabia que o senhor ia querer de volta.
O velho pareceu surpreso.
-E por que eu viria atrás de uma única moeda, menino?
O menino sorriu. Um sorriso sincero de alguém que nunca teve muitos motivos para sorrir.
-Ninguém ia gostar de perder uma moeda mágica, não é?
O velho riu.
-Filho, essa moeda não é mágica. É um denar comum, como todos os outros.
O garoto ficou sério. Coçou a cabeça e disse um pouco envergonhado.
-Foi mágica para mim. Me trouxe o que eu mais precisava: um mago.
Os dois se olharam por alguns instantes. Nunca ninguém tinha olhado assim para o menino em toda a sua vida de órfão.
-Foi mágica para mim também. Trouxe o que eu mais precisava. Qual o seu nome, garoto?
-"Alephi, senhor", ele sussurrou na caverna. Enquanto adormecia com a moeda de cobre em sua mão.
-É um prazer conhecê-lo, meu aprendiz.
CAPÍTULO 6
O sol brilhava alto no céu quando ele acordou e saiu da caverna. A estação das chuvas deveria continuar por mais algumas semanas, mas aquela seria uma manhã de trégua.
Ali tudo parecia calmo, mas seria tolice retornar à Torre. A melhor opção seria procurar o vilarejo mais próximo. A questão era se deveria ir pela estrada principal - um caminho muito mais rápido - ou pelo bosque - o que levaria muito mais tempo.
Ele bebeu um pouco de água do riacho. A fome não era um problema. Já ficara muito mais tempo sem comer. Ali perto havia uma pequena colina que poderia servir como ponto de observação. Hora de escalar.
Lá de cima ele pôde ver a Torre. A fumaça havia se dissipado, e era possível observar os escombros. Uma visão lamentável. Ao oeste, a pequena estrada de terra batida seguia sinuosa. Nenhum sinal da mulher de olhos azuis.
Ao longe uma carroça seguia pela estrada. Ia à direção do vilarejo, sem dúvida. Dali ele pôde ver que era um carroção fechado e pintado em cores vivas. Provavelmente uma trupe de artistas, um grupo de ciganos ou de prodajalci, que sempre traziam remédios, velhos livros ou doces para vender.
Era perigoso, mas com certeza muito melhor do que ir caminhando por entre as árvores.
Ele desceu o mais rápido que pôde. Era melhor do que ficar ali e esperar.
Correu em direção à estrada e se escondeu atrás de um grande tronco caído. Não queria assustar os viajantes, mas também não podia ficar exposto.
O som das rodas e dos cascos foi se aproximando cada vez mais. Até que, subitamente, parou perto do local onde ele estava.
-"Bom dia, viajante". Ele ouviu uma voz clara e alegre. "Pode sair desse esconderijo patético. Eu não ofereço ameaça nem tenho ouro. Então vamos logo com isso".
Ele se levantou, calmamente. Deixou as mãos à mostra e fez a sua melhor cara de inocente.
-"Desculpe. Eu não quis assustá-la, moça. Mas preciso de uma carona para o vilarejo mais próximo. Posso pagar".
Ela baixou seu capuz. Ele não pôde deixar de se surpreender. Era muito, muito branca. Seus cabelos caíam em longos anéis ruivos. E os olhos verdes eram grandes e brilhantes.
Ela riu. Uma risada límpida e alta.
-Suba amigo. Estou mesmo indo para lá.
Ele subiu, meio sem graça e sentou do lado dela. Evitou ficar encarando. Com certeza deveria estar vermelho de vergonha.
-Eu me chamo Niksa, viajante. Como você se chama?
-"Wilfred", ele respondeu, usando o primeiro nome que veio à mente. "Desculpe o susto. Os últimos dias foram um pouco estranhos".
-Nem me diga Will. Mas o sol sairá em breve. E tudo fica bem com o sol brilhando lá em cima.
A voz dela era doce. Não era exatamente sensual, mas um misto de alegria e inocência. Bem próximo da sensação que tinha quando bebia o hidromel feito por seu mestre.
-Você não é uma cigana. Por que está viajando?
Ela pareceu genuinamente surpresa.
-Como sabe que não sou uma cigana?
-Os ciganos são mais morenos. Nunca vi um com cabelos de fogo.
A risada dela ressoou por toda a estrada.
-E você já viu muitos ciganos, Will?
-Muitos. São muito comuns na estrada. E também na Capital.
Ela pareceu pensar por um segundo. Ele achou engraçado como ela colocava a ponta do dedo indicador no queixo enquanto pensava.
-Verdade. Eu não sou uma cigana. Nem uma vendedora. Faço um pouco de tudo.
Ele a olhou com uma expressão confusa. Ela deve ter entendido errado, porque segundos depois corou e disse um pouco constrangida.
-Não. Não. Não é o que você está pensando. Eu viajo pelas cidades. Vendo elixires. Realizo tratamentos e faço pequenas cirurgias. Canto e interpreto também. De onde venho somos chamados de brivici.
-Acho que já ouvi falar. Já conheci um na Capital. E meu mestre costumava dizer que não passavam de.
Ela riu de novo. Ele achou esquisito o fato de ela rir o tempo todo.
-Charlatões? Já ouvi coisas piores.
-Desculpe. Não quis ofender.
-Você se desculpa demais, Will. Não. Não se desculpe de novo. Viu? Não tem problema nenhum. Muitos pensam isso de nós. Sabe o que meu mestre costumava dizer? "Ganha-se a vida". É o que ele dizia.
Enquanto viajavam lentamente pela estrada de chão batido ele observava o bosque. Tinha passado dois anos ali, e agora teria que ir embora. A Torre não estava mais ali. Seu mestre se fora. Um inimigo rondava a área. Não tinha a menor ideia do que faria dali em diante.
-Não fique com esse olhar triste, Will. Quer ouvir uma música? Ajuda nessas horas. Segure a rédea, Assi pode ser um pouco teimoso, às vezes.
Ela pegou um bandolim que carregava, ensaiou um sorriso um pouco maroto, limpou a garganta e disse:
-Essa se chama "a balada da ruiva e do viajante triste". É uma história sobre um jovem viajante que encontra uma bela jovem ruiva em uma carroça numa estrada. Bem, talvez ela não seja mais tão jovem assim, mas gosta de pensar que é. Quer ouvir?
Ele respondeu que sim, rindo alto. Seu primeiro riso em dias. Ela começou a cantar. Sua voz não era tão bela quanto ele tinha imaginado, mas era límpida e alta.
-"Era uma vez uma bela jovem ruiva. Ela seguia pela estrada. O sol brilhava em seu rosto. E ela não pensava em mais nada". Está rimando, viu?
-"O sol brilhava nas suas madeixas. Sua barriga roncou de fome. E tudo que ela queria eram ameixas".
-É. Está rimando. Nada mal.
-"Ela parou de repente. Olhou para a estrada com atenção. E viu alguém se escondendo em um tronco à sua frente. Poderia ser um rufião ".
-Imagino quem seja.
-"Ela achou estranho. Aquilo não poderia ser verdade. Como alguém poderia tentar se esconder em um tronco daquele tamanho? Não tinha a menor habilidade".
-Ei!
-"Mas ela disse 'bom dia'. Chamou-o para subir na carroça. Ele fez uma cara de. hã. pia. Mas não negou um sorriso à moça".
-"Pia"?
-Quieto. Não dá para acertar tudo. "Ele subiu, educado. Ela sorriu um sorriso polido. Parecia um pouco desastrado. Mas ela o achou bem bonito".
-"Essa parte ficou muito boa", disse. E percebeu que um peso tinha sido retirado das suas costas. Talvez ela tivesse razão. A música era boa e o sol havia voltado.
-"Ele perguntou sobre ela. Queria saber o que fazia. Ela contou um pouquinho. E ele tudo ouvia".
A carroça seguia sem alterar sua velocidade. Ele nem mesmo olhava a estrada. Só tinha olhos para ela.
-"Eles conversaram um pouco por ali. Ela se chamava Niksa.".
-Ei. Dessa vez não rimou.
-"Ele era um alquimista. E se chamava Alephi".
CAPÍTULO 7
O aprendiz não poderia estar longe. Ele estava ferido. Não muito, mas estava. Estava sem provisões e sem transporte. Não poderia ter ido muito longe.
Foi um golpe de sorte - ou de azar. Ela tinha revirado aquela maldita torre durante três dias. Três malditos dias, e nada. Nenhum sinal do livro. O Mojster, como sua mestra o chamava. O Livro-dos-mestres.
E então ela saiu para averiguar o acampamento, e quando voltou o aprendiz estava lá, de pé, com o livro nas mãos. Era muita sorte. Ele parecia um idiota fraco. E realmente era.
Mas ele tinha dado sorte. Sorte demais. Ela quase acreditava que os Deuses estavam colocando seu dedo naquilo. Mas Sestra não a trairia assim. Ela era sua filha, e uma mãe nunca trairia suas filhas.
Ela tinha procurado o aprendiz por todos os lados. Tinha procurado atrás de cada árvore do bosque, em cada buraco que encontrou. Ele havia sumido. Como?
Seria possível que ele tivesse usado uma das fórmulas do livro? Não. Era impossível. Ele era um alquimista e não um mago. Precisava de seu laboratório para preparar suas poções. E mesmo que tivesse um laboratório, ele era apenas um iniciante. Sem seu mestre, nunca faria nada de útil com o livro.
Tanto conhecimento nas mãos de um incapaz. Chegava a ser triste.
Ela respirou fundo e sentou em uma pedra cinzenta. Ali tinha sido o salão principal da torre de Iskanje. Agora era só lixo. Tinha que pensar em um plano.
Àquela hora, provavelmente seus dois irmãos já deveria estar de volta à Sarce Vode, seu lar no meio do mar interno. Ela não poderia se atrasar mais, mas não poderia voltar para sua amada maceha sem ter cumprido sua missão.
O que fazer? Ela não conhecia nenhum feitiço de localização. Não era uma caçadora como sua irmã. Nem combatente como seu irmão. Era uma feiticeira negra. Uma sacerdotisa de Sereberna, a senhora prateada.
Sua arte era matar, não caçar.
Ao longe ela escutou as correntes do seu prisioneiro. Ele ainda se debatia. Não tinha comido por três dias, mas ainda tinha forças para tentar escapar. Mas as correntes prateadas eram fortes. Ele ficaria ali enquanto ela quisesse.
Não que ela desejasse isso. Se dependesse da sua vontade, ele estaria morto. Ela o teria amarrado em uma árvore e ateado fogo. Nele, na Torre, no bosque e no resto mundo. Ele queimaria como os outros haviam queimado.
Mas não. Sua maceha tinha dado ordens claras. Derrubar a torre. Capturar o mestre alquimista. Trazer de volta o livro. Matar qualquer um que se intrometesse nos seus assuntos.
Então ela havia cumprido sua missão, como sempre. Ela tinha levado os dois pergaminhos que sua maceha havia dado: o primeiro derrubou a torre com um estrondo. O feitiço dos devoradores.
Em todos os seus anos de prática ela nunca havia visto nada igual. No caminho do aprendizado ela vira sombras e escuridão. Morte e ressurreição. Noventa nomes e noventa e nove palavras de poder. Mas, mesmo durantes seus estudos, o feitiço dos devoradores era apenas uma lenda.
Até ler as palavras no pergaminho.
Tanto poder contido em palavras. O conhecimento de sua mestra não conhecia limites.
O segundo pergaminho deu cabo do mestre alquimista. Ele nem mesmo teve tempo de tentar se defender. Esse era o mal dos humanos. Sempre acham que são poderosos o suficiente para estarem seguros. Tolos.
Mas o aprendiz era um fator inesperado. Ela tinha imaginado que encontraria um ou dois aprendizes, o que não seria um problema. E estava certa. Ele deveria ter morrido facilmente, mas tinha sido covarde o suficiente para fugir e abandonar seu mestre.
Ela avaliou as possibilidades. Poderia sair em sua caça e tentar encontrar seu rastro. Poderia voltar para sua mestra e pedir a ajuda de seus irmãos. Poderia queimar todo o bosque e esperar que o aprendiz queimasse.
Não. Nenhuma das opções serviria. Ela abaixou a cabeça e passou os dedos negros pela longa cabeleira prateada. Estava cansada. Cansada demais.
O prisioneiro forçou as correntes novamente. O barulho a irritava. O barulho e o seu fedor. Teve que contar até dez para não levantar e fincar o sabre no seu coração. Como se não bastasse ter que aturar a companhia de tal besta, ainda era obrigada a aguentar o cheiro repugnante.
Ela se levantou com um salto. Era isso.
Saiu dos escombros da torre em passos rápidos. Seus pés leves de elfo mal moviam a grama. Em poucos segundos estava no acampamento.
Ao lado do que sobrara da sua fogueira, a besta estava agachada. Continuava acorrentada a uma árvore, embora não tivesse se acalmado. Seu pelo negro estava eriçado e seus olhos vermelhos estavam vidrados. Com os dentes afiados e as garras ele tentava arrancar as correntes. A cauda comprida estava enroscada no corpo. Parecia faminto. E perigoso.
Se o soltasse, provavelmente seria atacada. Coisas como aquela atacavam tudo que fosse vivo. Viviam para comer e caçar.
Caçar.
Ela se aproximou calmamente. A criatura tentou atacar, mas foi retida pela corrente com um forte solavanco. O fedor da podridão que suas mandíbulas exalava era enojante. Moscas zumbiam ao seu redor.
Ela sacou sua espada e apontou para a besta. Esta pareceu não se importar. Estava muito além da razão. O feitiço era perfeito.
-"Sente o cheiro do sangue?", ela perguntou na sua língua, apontando a ponta da lâmina perto do focinho da besta. "Encontre-o para mim".
-Traga-me seu aprendiz.
CAPÍTULO 8
A única coisa que ele conseguia pensar naquele momento era que mesmo com a lâmina da sua espada na garganta e com os olhos arregalados de medo ela continuava linda.
E que os cabelos vermelhos tinham um perfume maravilhoso.
Ele tinha sacado a espada o mais rápido que pôde – e isso era muito rápido – e colocado no pescoço dela. Isso tinha acontecido há apenas alguns minutos, mas parecia um tempo bem maior.
Niksa tinha tremido com o movimento brusco dele. Assi, contudo, continuava trotando pela estrada. Alephi a olhava tentando compreender, tentando ler algo nos olhos dela, mas não havia nada.
Apenas medo.
Isso só poderia significar duas coisas: ou ela estava realmente assustada ou era muito bem treinada.
Ele queria acreditar que era apenas medo. Seria um desperdício que uma mulher tão linda fosse uma inimiga. Mas os últimos dias tinham sido bem estranhos.
O melhor era não arriscar.
Ela não tinha dito nada. Apenas soltado um pequeno grito que foi abafado.
-Quem é você mulher? Quem a mandou? Onde está meu mestre?
-Calma Al...
-Você está com a Mulher de Olhos Azuis? Onde ela está?
Mas ela não respondeu nada. Parecia apenas estar em pânico.
Ele comprimiu um pouco mais a lâmina no pescoço dela. Não suficiente para cortar. Ela tinha um pescoço tão longo e tão branco. Sua pele parecia leite fresco.
-Eu não vou perguntar de novo. Quem é você?
Então os olhos dela se arregalaram. O primeiro pensamento dele foi que seria impossível os olhos dela se arregalarem ainda mais.
O segundo foi que eles eram realmente lindos.
Ela abriu a boca e soltou um murmúrio gago:
-Ra-to.
-O quê?
-Rato. Tem um rato gigante ali.
Ele se virou o mais rápido que pôde. Era o truque mais velho do mundo. No momento em que se virou ele teve certeza que ela a atingiria pelas costas. E depois fugiria com quaisquer segredos e respostas que tivesse.
Mas não. Realmente havia um rato gigante ali.
Não era propriamente um rato. A criatura estava em pé sobre duas patas, mas tinha focinhos e garras e uma cauda. O corpo era coberto de pelos escuros e os olhos tinham um estranho brilho avermelhado. Deveria ter quase um metro e oitenta.
A criatura descia uma colina na direção da carroça. Assi empinou nervoso, tentando escapar. Alephi soltou a mulher e pulou para o solo, espada ainda em punho. Era tudo que tinha para se defender.
Quando estava a pouco mais de dois metros de distância Alephi teve certeza que podia sentir o fedor da criatura. Ela estava salivando. Alephi preparou a espada com as duas mãos, esperando o impacto. Exatamente como seu Mestre havia ensinado: usar o peso do adversário como alavanca. Cortar o mais fundo que puder. Não pensar.
Foi então que a flecha atingiu o homem-rato. Tudo foi tão rápido que Alephi nem mesmo se preocupou em olhar de onde vinha. Aproveitou que a criatura desacelerou, caindo para o lado com a surpresa da flecha, e avançou, atacando com a espada em um arco lateral.
O rato soltou um guincho de dor quando a espada atingiu seu braço. O membro pendia apenas por uma fina camada de pele e osso.
“Bela zeleza” lembrou. O aço branco alquímico. Não havia corte mais fino.
Ele preparou a espada. O rato começou a circulá-lo. Parecia sofrer. Parecia raivoso. Sua boca espumava enquanto o sangue jorrava do corte.
O que aquela criatura fazia ali? Não era comum que esses seres caminhassem á luz do dia. Nem por aquela área. Eram criaturas das sombras. Os Skrites, como eram chamados nas Terras da Sombra de Smirt ou nas Terras de Kaos.
Enquanto sua mente vagava a criatura atacou. “Erro básico”, Alephi pensou. “Nunca pense”, dizia seu Mestre. “Aja”.
Ele tentou se defender com a espada, mas não foi rápido o bastante. Os dois se atracaram e caíram no chão, rolando pela grama. A espada caiu longe da sua mão, e ele tentava, com muito esforço, segurar a criatura.
Se ela o mordesse tudo estaria acabado. A saliva pingava no seu rosto. O hálito era horrível.
Quando seus braços chegaram à exaustão Alephi usou a pouca força que restava para tentar erguer a cabeça do rato. Um esforço inútil. Era o fim.
Então outra flecha acertou o homem-rato. Dessa vez no olho direito. A criatura não teve nem tempo de guinchar e tombou para o lado.
Alephi sentou aos poucos. Estava exausto. Olhou para a carroça e viu Niksa de pé, com uma besta nas mãos. Parecia ofegante de nervoso.
-Ele morreu?
Ele respirou fundo antes de falar. As palavras saiam com dificuldade.
-Sim. Morto.
Ela pareceu se acalmar.
-Te devo uma Nikki.
A mulher sorriu. Parecia aliviada.
-Tudo bem. Eu não gosto de ratos. Tenho pavor, na verdade. De onde esse saiu?
Alephi levantou aos poucos e pegou a espada. Colocou-a na bainha e voltou para a carroça com passos lentos.
-Provavelmente estava com a Mulher de Olhos Azuis. Nós temos que ir embora daqui. Agora.
Ela arregalou os olhos mais uma vez – era impressionante a facilidade com que conseguia fazer isso – e apontou para o corpo do rato.
Ele não teve nem mesmo força para se virar e olhar o corpo. Estava cansado demais.
-O que foi? Não me diga que ele está voltando à vida.
-Está virando um homem.
Alephi se virou e correu para os restos da criatura. Ajoelhou ao lado com dificuldade e examinou o homem.
-“Você o conhece”? Ela perguntou.
Ele olhou com cuidado e tocou o rosto do homem morto.
-Não. Nunca o vi na vida.
CAPÍTULO 9
Ele se sentiu um pouco culpado por ter deixado o corpo do desconhecido na beira da estrada. Lá no fundo ele sabia que deveria ter enterrado o infeliz, mas não havia tempo.
A carroça seguia rangendo pela estrada de terra e a dupla seguia em silêncio. Ele não teve coragem de perguntar para Niksa como ela sabia o seu nome. Também não teve coragem de pedir desculpas por ter colocado a espada no seu pescoço.
Ela tinha salvado sua vida. Como se não bastasse ser linda, ela ainda tinha salvado sua vida.
Esse era o tipo de coisa que ele tinha aprendido na rua: você sempre precisa pagar suas dívidas. Se alguém ajuda você, você ajuda de volta. Se alguém te acerta, você faz o mesmo, só que com mais força.
Foi ela quem quebrou o silêncio.
-Então Al, nós vamos ficar nesse clima chato até a vila mais próxima?
Ele teve certeza absoluta que estava vermelho.
-Sério. Porque já tive viagens mais animadas apenas conversando com Assi. E ele não é muito bom de conversa, sabe? Sem ofensas, Assi.
O animal não pareceu se importar.
-Você tem razão. Desculpe. Eu não deveria ter te ameaçado. Mas eu tive uns dias bem estranhos, sabe?
Ela riu. Ela sempre ria.
-Imagino. Alguma coisa pior do que o rato gigante de hoje?
-Você nem tem ideia.
-Então por que não me conta. Está anoitecendo, e só chegaremos à vila quando a lua estiver alta no céu.
Ele respirou fundo. Por que não?
Quando a lua estava realmente alta no céu ele terminou de contar a sua história. Ela tinha ouvido cada palavra sem interromper, a não ser para perguntar sobre os detalhes. Era bom tirar o peso dos ombros.
-Nossa. Você não estava exagerando hein? Mas e agora? O que vai fazer?
-Sinceramente eu não tenho a menor ideia. Acho que vou me hospedar na estalagem, comer alguma coisa e descansar. Depois vou procurar alguma pista sobre meu Mestre.
Ela pareceu um pouco séria, o que era bem raro.
-E você acha que ele ainda está vivo?
Ele parou e ponderou por alguns instantes. Seu mestre era um homem sábio. Um grande alquimista que conhecia segredos desconhecidos para muitos. Não seria uma presa fácil.
-Tenho certeza que sim.
-Mesmo com a torre derrubada?
-Mesmo assim. Se eu não encontrei seu corpo, ele com certeza está escondido. E eu vou encontrá-lo. Devo isso a ele. É a minha única família.
-Entendo. Bem, eu desejo toda a sorte do mundo a você Al. A você e a quem tentar te impedir de encontrar seu mestre.
-Como assim?
Ela gargalhou alto dessa vez.
-Ora, eu vi como você sabe usar essa espada. Não gostaria de estar na pele de quem quer que entre no seu caminho.
Agora foi a vez dele de rir. Mas foi um riso amargo. Em breve chegariam ao vilarejo e seus caminhos se separariam. Por mais estranho que fosse, ele sentiria sua falta dela.
-E você? Quais são seus planos?
-Ah, nós brivicis somos mercadores. Vivemos pra lá e para cá. Eu provavelmente vou fazer uma ou duas apresentações na vila, vender uns elixires e depois vou partir. Talvez para a Capital.
-Você falou antes desse elixir. O que ele faz?
-Sério? Você é um alquimista? Quer mesmo me humilhar perguntando o que o meu mísero elixir faz?
-Sério.
Ela pareceu um pouco triste e sorriu um sorriso amarelo. O primeiro assim que ele tinha visto naquele rosto tão bonito.
-Não faz quase nada Al. É quase todo álcool e alguma ervas para dar gosto. As pessoas acreditam que funcionam, e algumas até se curam. Mas, na verdade, não passa de uma enganação.
-E você não se sente mal por enganar as pessoas?
-Na verdade não. As cirurgias que eu faço são reais. Os espetáculos e as músicas também. E meu mestre dizia que muitas pessoas sofrem de doenças do espírito, e que a crença no elixir as cura. Talvez ele esteja certo.
Ali os sons e odores do vilarejo chegavam. Mais alguns minutos e chegariam ao seu destino.
Ele meditou sobre aquilo por alguns minutos. “Pagar as dívidas”, pensou. Buscar o equilíbrio. Curar o espírito e o corpo.
Por que não?
-Pare a carroça.
-“Por quê? Outro rato gigante?” disse assustada.
Ele saltou e foi até as árvores do bosque. Voltou com um punhado de ervas e algumas pequenas frutas vermelhas.
-Conhece essas ervas?
-Claro. São bem comuns, Na verdade são quase uma praga na região.
-Isso. E essa fruta? Chama-se sadiji krivi.
-Claro. É uma amora doce. Comi muitas no caminho.
Ele foi até a carroça, pegou um frasco e esvaziou no chão.
-Ei. Ei. Isso custa caro.
-Quieta mulher. Preste atenção.
Ele a ensinou como esmagar as frutas e as ervas e como curti-las em álcool.
-Faça isso na primeira noite de lua nova. Deixe assim por dois dias.
Ela prestava atenção em silêncio.
-O que é isso?
-Um elixir de verdade, Nikki. Ele realmente cura feridas e algumas doenças. Nada muito grave, mas funciona. Foi a primeira poção que aprendi.
Ela o olhou com uma expressão estranha. Mais uma vez ele percebeu como era incapaz de ler os seus olhos. Mas ele nunca tinha visto um sorriso tão alegre.
-Obrigada.
Seguiram o restante do caminho em silêncio, novamente. O vilarejo era pequeno e tinha os cheiros comuns das vilas: lama, urina, cerveja e bosta de cavalo. Era quase como voltar para casa, ele pensou.
Ele saltou da carroça e olhou para a mulher. O sorriso ainda estava estampado no seu lindo rosto.
-Foi muito especial conhecer você Al. Obrigada por tudo.
-Não. Eu é que agradeço. Pela carona. Pela música e por ter salvado a minha vida.
Ela se inclinou sobre ele. Seu rosto chegou perto do dele, tão próximo que ele era capaz de sentir seu hálito. E o cheiro dos cabelos de fogo.
Ele sentiu sua pele se arrepiar. Um pequeno choque subiu pela sua espinha.
-“Sabe Al”, ela sussurrou no seu ouvido. “Tem uma coisa que eu queria te dizer desde que nos encontramos”.
Ele tentou perguntar o que era, mas a voz não saía. A língua dela quase tocou sua orelha.
-Tem uma mulher naquela taberna que quer te matar.
CAPÍTULO 10
Ele parou diante do pesado portão de bronze. Dali podia ver o tamanho real da construção. Nunca tinha visto nada igual.
O vento gelado açoitava os portões, com seu uivo alto e solitário. Ele não se movia. A neve e o frio não o incomodavam.
Ao seu lado, a neve manchada de sangue brilhava sob a fraca luz do sol pálido que atravessava o céu encoberto.
Ele estava parado ali há alguns minutos. Esperava pacientemente a troca da guarda. Não se movia.
Aos poucos sua armadura negra ia sendo soterrada pela neve. Homens mais fracos estariam tremendo com o frio enquanto morriam, mas ele permanecia de pé.
Seus olhos azuis permaneciam fixos. O portão se abriria em breve.
Ele estava certo. Pouco tempo depois escutou o rangido do bronze, e pouco a pouco o enorme portão começou a se mover. Lá dentro, o gigante empurrava o maquinário com sua força sobrenatural.
Ele estudou a criatura. Os velikans, os gigantes das colinas nevadas eram criaturas com cerca de sete metros. Sua pele era de um tom azul pálido e suas barbas e cabelos eram brancos. Este usava uma armadura de escamas cinzenta e carregava um enorme machado nas costas.
“Uma presa fácil”, pensou.
Não demorou muito até que a criatura visse os corpos de seus dois colegas. Ambos estavam caídos na neve, cobertos de sangue. O gigante pareceu surpreso, e olhou ao redor.
Levou um minuto até perceber o pequeno homem com armadura negra ali parado. Com certeza, aos olhos da criatura, ele parecia uma pequena estátua. Coberta de neve e gelo.
O gigante ergueu o grande machado e gritou alguma coisa na língua dos gigantes. Ele não se lembrava de como essa língua se chamava nem sabia pronunciá-la, mas teve certeza do seu significado.
Aguardou. A espada em punho. O escudo preso nas costas.
A criatura atacou, girando o machado com força. Ele já tinha ouvido falar da enorme força dos gigantes. Eram seres capazes de levantar grandes pedras, arrancar árvores do chão ou mesmo destruir castelos com seus próprios punhos.
Diziam que não sentiam frio e que se você fosse tocado por um, congelaria em poucos minutos.
E diziam que eram grandes guerreiros. Viviam dois séculos e muitos desses anos eram dedicados à arte da batalha.
Tudo isso ele pensou enquanto o gigante se aproximava, brandindo o machado.
Ele esperou ficarem frente a frente, se agachou e rolou por entre as pernas do gigante. Com um movimento rápido, cortou o calcanhar direito com a espada.
O gigante caiu no chão coberto de neve, com um grande urro de dor.
Ele se aproximou e fincou sua lâmina nas costas do gigante. “Menos três”, pensou.
Dentro da fortaleza, ele sabia, havia cerca de mais três. Seis era um número sagrado para os velikans, e os solos sagrados eram sempre protegidos por seis guardas. Números, números e mais números.
Ele odiava números.
Odiava letras também. Sua maceha tinha tentado ensiná-las desde que era uma criança, mas ele não tinha conseguido aprender. Então, depois de muitas e muitas tentativas, ela disse que ele possuía uma doença chamada disleksija, e que nunca aprenderia a ler nem escrever.
Mas ela lia histórias para ele, quando era criança. Não as adorava, exceto pelas histórias de dragões. Sempre quis ter um dragão.
Ele não se importava em não saber ler. Sobrava mais tempo para treinar com a espada. Enquanto suas irmãs estudavam, ele treinava. Durante anos e anos ele treinou. Lança e escudo. Arco e machado. Adaga e bastão. E principalmente a espada.
Anos e anos de treinamento, e ainda havia tanto a aprender.
Sua maceha nunca criticou por isso. Ao contrário, sempre o incentivou a aprender a lutar. E ele aprendeu tudo o que pôde.
Quando se tornou um homem, ela o presenteou com uma espada branca. Feita de bela zeleza, sob medida. Uma espada que o tonaria um guerreiro lendário, ela disse.
Mas não. Ele não procurava se tornar uma lenda. Lendas eram escritas, e ele detestava as palavras. Detestava lendas, exceto as de dragões. Não desejava ser uma lenda. Desejava apenas um dragão, e isso nem sua maceha poderia dar.
E, além do dragão, ele desejava vingança.
Ergueu-se e caminhou em direção à entrada. Após os portões um grande salão iluminado por tochas permanecia vazio. O chão era de mármore e uma grande abóbada era sustentada por seis colunas brancas.
No centro, uma estátua de Oce Viseh, o Pai dos Gigantes segurava uma lança. Era talhada em mármore branco e segurava presa entre o indicador e polegar, uma pequena esfera de cristal azul clara, do tamanho de uma maçã.
Ele havia encontrado: a pedra fundamental do reino de Veter. Sua missão estava quase cumprida. Esperava que suas irmãs tivessem conseguido cumprir sua parte também.
Então ele ouviu os passos e viu os gigantes se aproximarem. Mais três, exatamente como ele havia previsto.
Fácil demais.
Ele ergueu sua espada e se preparou para atacar, mas então percebeu que um dos gigantes não estava armado. A criatura estava parada diante de uma corrente que subia até o teto do edifício e descia novamente, ligando-se a uma enorme grade no chão. Com um grande puxão, a grade se abriu.
E, das profundezas do poço, o dragão surgiu.
Não tinha a menor ideia de como os gigantes o tinham conseguido. Não era um dragão adulto, mas um bem jovem, com cerca de quinze anos. Tinha cerca de seis ou sete metros e suas escamas eram um misto de branco e prateado. Seus olhos eram de um azul profundo, como os seus.
Um dragão prateado.
Deveria estar faminto e assustado, o que era terrivelmente perigoso em um dragão. Em tais situações, ele sabia, eles atacavam tudo o que se movia.
Ele tirou o elmo e olhou fixamente para a criatura. Os gigantes pareceram surpresos. Com certeza nunca tinham visto um elfo negro. Estavam todos extintos.
O dragão avançou em sua direção, urrando. Suas garras arranhavam o chão e suas asas derrubavam tudo ao redor.
O elfo negro sorriu.
Sempre quis ter um dragão.

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