MARÇO
DE 1985.
A
casa estava cheia. As chuvas de março caíam com força e, do lado
de fora, o quintal tremia com o vento.
-É
só uma chuva de verão – disse um velho senhor de terno e gravata
– logo vai passar.
A
mulher permaneceu em silêncio, sentada na poltrona. Sua cabeça
permanecia abaixada e ela cobria o rosto com as mãos. As lágrimas
escorriam, borrando a maquiagem.
O
funeral estava lotado. A opção de um funeral em casa era estranha
para muitos, mas a família da viúva era norte-americana, e isso era
muito comum naquela terra, segundo os sussurros na sala.
De
qualquer modo, a casa era grande e todos os convidados estavam bem
acomodados.
Alessa
estava sentada em uma poltrona em um canto, abraçada com sua boneca
favorita. Tinha apenas nove anos e já havia compreendido que nunca
mais veria seu pai.
Ela
queria chorar, mas as lágrimas tinham acabado na noite anterior.
As
pessoas iam e vinham, cumprimentando sua mãe, a viúva. Alguns
passavam e afagavam suavemente seus cabelos, mas eram poucos. De
certa forma, ela preferia que fosse assim.
-No
interior chamam de “beber o morto” – comentou alguém, em voz
baixa – mas eu nunca tinha visto isso.
Perdida
na multidão de pernas e vestidos negros em sua sala, Alessa olhava
fixamente para sua mãe, do outro lado do salão. Embora estivesse
com os olhos vidrados nela, não a enxergava. Sua mente perdida a
quilômetros de distância, em seu pai, que ela pouco via.
Como
podia sentir falta de alguém que era quase um estranho?
-Porque
ele era seu pai. Filhos sempre sentem falta de seus pais. É uma das
regras.
A
menina se virou para o lado e olhou para o homem que havia falado.
Era extremamente alto e vestia um terno preto riscado. Havia alguma
coisa estranha nele, embora Alessa não soubesse dizer o quê.
Talvez
fosse o cheiro. Como algo guardado em um armário há muito tempo.
Sentada,
ela teve que erguer a cabeça para ver o rosto do homem. Era um rosto
quadrado e forte, sem nenhum fio de cabelo ou barba. Ela achou
estranho o fato do homem usar óculos escuros, embora fosse noite.
O
homem de preto se agachou ao lado do sofá. Seus movimentos eram
lentos e pesados, como se fosse difícil se mexer. Aproximando seu
rosto da menina, ele falou com uma voz baixa, quase um sussurro.
-Seu
pai se foi, Alessa, e eu sinto muito. Nada mais pode ser feito sobre
isso. Eu o conhecia bem. Mas e você?
Alessa
olhou aquele homem estranho. De certo modo, gostava da forma que ele
falava com ela, como se não fosse apenas uma criança. Ela estava
farta de ser tratada como uma, principalmente naquela noite.
-Eu
não vou tratar você como uma criança, Alessa. Nenhum de nós dois
iria gostar disso, não é?
A
menina concordou lentamente com a cabeça. O homem continuou, com uma
voz rouca e pesada.
-Veja
bem, Alessa. Eu conheci ou seu pai. Há muito tempo atrás. Não
éramos amigos, mas eu o conhecia. E você? Conhecia o seu pai?
Com
o mesmo gesto lento de antes, Alessa negou com a cabeça. Não o
conhecia. Seu pai era um estranho que a visitava de tempos em tempos.
Era carinhoso quando estavam juntos, mas, na verdade, sempre estivera
distante.
-Você
pode conhecer seu pai, Alessa. Mas somente se desejar. Ele deixou um
presente pra você. Um presente muito valioso. Mas para isso você
tem que descer até o porão da sua casa e busca-lo.
-A
nossa casa não tem porão.
O
homem a olhou por alguns instantes, tão impassível quanto antes.
-Tem
certeza? – perguntou o homem de preto, virando-se do mesmo modo
lento e pesado de antes e olhando para uma porta de madeira do outro
lado da sala. Era uma porta simples, de madeira escura, sem
fechadura.
Uma
porta que nunca esteve ali.
Alessa
olhou para a porta e, surpresa, virou-se para o homem de preto. Mas
ele não estava mais ao seu lado.
Atônita,
Alessa se levantou da poltrona e caminhou até a porta, desviando das
pernas das pessoas que andavam de um lado para o outro sem nota-la.
Do
outro lado do salão, sua mãe a olhava, em silêncio. Sabendo que
tudo estava perdido.
Alessa
chegou até a porta e a tocou. Era real e a madeira parecia maciça.
Com suavidade, ela girou a antiga maçaneta de bronze.
HOJE:
Alessa
se contorceu na cama como um gato, revirando-se nos lençóis
empapados de suor.
Sem
nem mesmo abrir os olhos, percebeu que ainda era noite.
Por
que seu pai? Por que agora?
E
se enrolou sob os lençóis, mergulhando novamente em seus sonhos.
A
janela se abriu devagar trazendo o ar quente de janeiro. Na cama,
Alessa sentiu a lufada de vento, mas não se mexeu. Estava cansada.
Cansada demais.
A
sombra entrou com movimentos lentos. Embora sua forma lembrasse um
ser humano, era impossível distinguir suas feições ou expressões.
Era uma sombra, pura e simples.
A
sombra caminhou e parou do lado de sua cama. Alessa abriu seus olhos
instintivamente e encarou a coisa, que estava ajoelhada ao seu lado.
Por
um instante achou que estivesse sonhando. Mas não.
Por
cima da cabeça da criatura, ela podia ver a janela do quarto aberta,
e, sobre um céu sem nuvens, uma enorme lua cheia brilhava, entre
seus tons prateados e amarelados.
Era
verão, e a brisa suave soprou nas mechas do seu longo cabelo.
A
criatura a encarou por um longo tempo. Fitando os olhos esverdeados
da mulher. Seus olhos eram de um leve tom dourado, vazios e
inexpressivos.
Então,
da mesma forma que entrou, a criatura se ergueu e saiu do quarto.
A
janela se fechou lentamente, sem ruído.
Do
outro lado do quarto, a porta se bateu bruscamente enquanto Alessa
saía correndo pelo corredor.
AGORA
Já
era por volta de três da manhã quando Alessa saltou do táxi perto
do porto. Embora as obras tivessem melhorado muito aquela área, às
três da manhã o porto continuava tão vazio e abandonado quanto
antes.
O
motorista recebeu o dinheiro e perguntou pela terceira vez se ela
queria mesmo ficar ali.
Ela
disse que sim, sem nem olhar o rosto do homem.
-Não
quer que eu espere, moça? Isso aqui é perigoso.
Mas
ela nem mesmo o ouviu. Estava perto. Muito perto.
Sem
olhar para os lados ela seguiu até um dos galpões. Assim como os
outros que não haviam sido revitalizados pela prefeitura, esse
galpão estava completamente abandonado, exceto por dois homens que
conversavam na porta.
Os
dois estavam mal vestidos. Não o suficiente para serem moradores de
rua, mas provavelmente eram carregadores.
Era
o lugar certo.
Ela
acendeu um cigarro. Não tinha fumado a noite toda. A fumaça subiu
rodopiando enquanto ela se aproximava dos dois.
-Boa
noite – disse, com sua voz rouca, olhando os dois estivadores
suados e imundos, que a olharam de cima a baixo.
-
Buenas noches, niña – disse o mais baixo dos dois, com um sorriso
com poucos dentes.
Claro.
Não falavam português. Ela era capaz de encontrar o que procurava
em uma cidade de seis milhões de pessoas, mas não conseguia saber
que um idiota não falaria sua língua.
“Arte
sutil”, o cacete.
Ela
respirou fundo e tragou mais uma vez o cigarro, soltando a fumaça
com suavidade em cima dos dois homens.
-
Buena noches. Estoy a la vigilancia aduanera. Vine a conseguir la
orden.
Os
dois homens se olharam, atônitos.
-
Que pasó? El jefe no nos dijo nada – disse o mesmo homem, se
aproximando dela o suficiente para que ela sentisse o fedor do suor.
Ela
tragou o cigarro de novo e encarou o homem.
-
¿En serio? Entonces le llame y pregunte.
O
homem enfiou a mão no bolso e puxou um celular, que estava preso
junto a uma pistola prateada.
Ele
começou a teclar um número, mas o outro segurou sua mão e comentou
alguma coisa em voz baixa. O que estava com o celular na mão a olhou
novamente, encarando-a, e disse:
-
Bien, puta, vamos a tener una cerveza.
E
saíram, resmungando.
“Arte
sutil”, o cacete, ela repetiu por entre os dentes.
Alessa
entrou no galpão e começou a caminhar pelo labirinto de
contêineres. Eram muitos, todos enormes e de todos os lugares
imagináveis.
Em
um dos cantos mais afastados do galpão, ela encontrou o container
que procurava.
Era
escuro e enferrujado, mas ela conseguiu ler as palavras apagadas em
vermelho.
“Moçambique”.
Ela
suspirou, exausta, e jogou a guimba do cigarro no chão, apagando-a
com a ponta do sapato.
Sacou
um pé-de-cabra que estava ao lado, apoiado em uma das paredes, e
começou a forçar o cadeado. Levou algum tempo, mas o cadeado e a
corrente finalmente cederam.
Com
um ruído metálico, a grande porta se abriu, revelando o fedor de
detritos humanos e podridão.
Lá
dentro, em meio a várias caixas de madeira, quatro corpos que já
tinham sido humanos estavam espalhados.
Estavam
tão apodrecidos que era quase impossível dizer se eram homens ou
mulheres.
Alessa
entrou no container, prendendo a respiração e se aproximou do
fundo.
Lá
dentro, entre as caixas e a sujeira, uma menina tremia, encolhida.
Não
devia ter mais do que quinze anos, estava suja, seminua e desnutrida.
Mas ainda assim, viva.
-Olhe
pra mim – disse Alessa.
A
menina não se moveu. Apenas tremia, em pânico.
-Olhe
pra mim – disse novamente Alessa, agora em um tom mais incisivo.
A
menina se mexeu devagar, assustada, e olhou para a mulher. Alessa a
encarou por alguns instantes, fixamente.
Seus
olhos fundos pela magreza eram de um leve tom dourado.
Alessa
enfiou a mão no bolso e acendeu outro cigarro, afastando uma mecha
do cabelo.
-Merda.
