sexta-feira, 29 de maio de 2015

Sangue das Feiticeiras - Capítulo 1 - A órfã, a sombra e a menina que viajou

MARÇO DE 1985.
A casa estava cheia. As chuvas de março caíam com força e, do lado de fora, o quintal tremia com o vento.
-É só uma chuva de verão – disse um velho senhor de terno e gravata – logo vai passar.
A mulher permaneceu em silêncio, sentada na poltrona. Sua cabeça permanecia abaixada e ela cobria o rosto com as mãos. As lágrimas escorriam, borrando a maquiagem.
O funeral estava lotado. A opção de um funeral em casa era estranha para muitos, mas a família da viúva era norte-americana, e isso era muito comum naquela terra, segundo os sussurros na sala.
De qualquer modo, a casa era grande e todos os convidados estavam bem acomodados.
Alessa estava sentada em uma poltrona em um canto, abraçada com sua boneca favorita. Tinha apenas nove anos e já havia compreendido que nunca mais veria seu pai.
Ela queria chorar, mas as lágrimas tinham acabado na noite anterior.
As pessoas iam e vinham, cumprimentando sua mãe, a viúva. Alguns passavam e afagavam suavemente seus cabelos, mas eram poucos. De certa forma, ela preferia que fosse assim.
-No interior chamam de “beber o morto” – comentou alguém, em voz baixa – mas eu nunca tinha visto isso.
Perdida na multidão de pernas e vestidos negros em sua sala, Alessa olhava fixamente para sua mãe, do outro lado do salão. Embora estivesse com os olhos vidrados nela, não a enxergava. Sua mente perdida a quilômetros de distância, em seu pai, que ela pouco via.
Como podia sentir falta de alguém que era quase um estranho?
-Porque ele era seu pai. Filhos sempre sentem falta de seus pais. É uma das regras.
A menina se virou para o lado e olhou para o homem que havia falado. Era extremamente alto e vestia um terno preto riscado. Havia alguma coisa estranha nele, embora Alessa não soubesse dizer o quê.
Talvez fosse o cheiro. Como algo guardado em um armário há muito tempo.
Sentada, ela teve que erguer a cabeça para ver o rosto do homem. Era um rosto quadrado e forte, sem nenhum fio de cabelo ou barba. Ela achou estranho o fato do homem usar óculos escuros, embora fosse noite.
O homem de preto se agachou ao lado do sofá. Seus movimentos eram lentos e pesados, como se fosse difícil se mexer. Aproximando seu rosto da menina, ele falou com uma voz baixa, quase um sussurro.
-Seu pai se foi, Alessa, e eu sinto muito. Nada mais pode ser feito sobre isso. Eu o conhecia bem. Mas e você?
Alessa olhou aquele homem estranho. De certo modo, gostava da forma que ele falava com ela, como se não fosse apenas uma criança. Ela estava farta de ser tratada como uma, principalmente naquela noite.
-Eu não vou tratar você como uma criança, Alessa. Nenhum de nós dois iria gostar disso, não é?
A menina concordou lentamente com a cabeça. O homem continuou, com uma voz rouca e pesada.
-Veja bem, Alessa. Eu conheci ou seu pai. Há muito tempo atrás. Não éramos amigos, mas eu o conhecia. E você? Conhecia o seu pai?
Com o mesmo gesto lento de antes, Alessa negou com a cabeça. Não o conhecia. Seu pai era um estranho que a visitava de tempos em tempos. Era carinhoso quando estavam juntos, mas, na verdade, sempre estivera distante.
-Você pode conhecer seu pai, Alessa. Mas somente se desejar. Ele deixou um presente pra você. Um presente muito valioso. Mas para isso você tem que descer até o porão da sua casa e busca-lo.
-A nossa casa não tem porão.
O homem a olhou por alguns instantes, tão impassível quanto antes.
 -Tem certeza? – perguntou o homem de preto, virando-se do mesmo modo lento e pesado de antes e olhando para uma porta de madeira do outro lado da sala. Era uma porta simples, de madeira escura, sem fechadura.
Uma porta que nunca esteve ali.
Alessa olhou para a porta e, surpresa, virou-se para o homem de preto. Mas ele não estava mais ao seu lado.
Atônita, Alessa se levantou da poltrona e caminhou até a porta, desviando das pernas das pessoas que andavam de um lado para o outro sem nota-la.
Do outro lado do salão, sua mãe a olhava, em silêncio. Sabendo que tudo estava perdido.
Alessa chegou até a porta e a tocou. Era real e a madeira parecia maciça. Com suavidade, ela girou a antiga maçaneta de bronze.
HOJE:
Alessa se contorceu na cama como um gato, revirando-se nos lençóis empapados de suor.
Sem nem mesmo abrir os olhos, percebeu que ainda era noite.
Por que seu pai? Por que agora?
E se enrolou sob os lençóis, mergulhando novamente em seus sonhos.
A janela se abriu devagar trazendo o ar quente de janeiro. Na cama, Alessa sentiu a lufada de vento, mas não se mexeu. Estava cansada. Cansada demais.
A sombra entrou com movimentos lentos. Embora sua forma lembrasse um ser humano, era impossível distinguir suas feições ou expressões. Era uma sombra, pura e simples.
A sombra caminhou e parou do lado de sua cama. Alessa abriu seus olhos instintivamente e encarou a coisa, que estava ajoelhada ao seu lado.
Por um instante achou que estivesse sonhando. Mas não.
Por cima da cabeça da criatura, ela podia ver a janela do quarto aberta, e, sobre um céu sem nuvens, uma enorme lua cheia brilhava, entre seus tons prateados e amarelados.
Era verão, e a brisa suave soprou nas mechas do seu longo cabelo.
A criatura a encarou por um longo tempo. Fitando os olhos esverdeados da mulher. Seus olhos eram de um leve tom dourado, vazios e inexpressivos.
Então, da mesma forma que entrou, a criatura se ergueu e saiu do quarto.
A janela se fechou lentamente, sem ruído.
Do outro lado do quarto, a porta se bateu bruscamente enquanto Alessa saía correndo pelo corredor.
AGORA
Já era por volta de três da manhã quando Alessa saltou do táxi perto do porto. Embora as obras tivessem melhorado muito aquela área, às três da manhã o porto continuava tão vazio e abandonado quanto antes.
O motorista recebeu o dinheiro e perguntou pela terceira vez se ela queria mesmo ficar ali.
Ela disse que sim, sem nem olhar o rosto do homem.
-Não quer que eu espere, moça? Isso aqui é perigoso.
Mas ela nem mesmo o ouviu. Estava perto. Muito perto.
Sem olhar para os lados ela seguiu até um dos galpões. Assim como os outros que não haviam sido revitalizados pela prefeitura, esse galpão estava completamente abandonado, exceto por dois homens que conversavam na porta.
Os dois estavam mal vestidos. Não o suficiente para serem moradores de rua, mas provavelmente eram carregadores.
Era o lugar certo.
Ela acendeu um cigarro. Não tinha fumado a noite toda. A fumaça subiu rodopiando enquanto ela se aproximava dos dois.
-Boa noite – disse, com sua voz rouca, olhando os dois estivadores suados e imundos, que a olharam de cima a baixo.
- Buenas noches, niña – disse o mais baixo dos dois, com um sorriso com poucos dentes.
Claro. Não falavam português. Ela era capaz de encontrar o que procurava em uma cidade de seis milhões de pessoas, mas não conseguia saber que um idiota não falaria sua língua.
“Arte sutil”, o cacete.
Ela respirou fundo e tragou mais uma vez o cigarro, soltando a fumaça com suavidade em cima dos dois homens.
- Buena noches. Estoy a la vigilancia aduanera. Vine a conseguir la orden.
Os dois homens se olharam, atônitos.
- Que pasó? El jefe no nos dijo nada – disse o mesmo homem, se aproximando dela o suficiente para que ela sentisse o fedor do suor.
Ela tragou o cigarro de novo e encarou o homem.
- ¿En serio? Entonces le llame y pregunte.
O homem enfiou a mão no bolso e puxou um celular, que estava preso junto a uma pistola prateada.
Ele começou a teclar um número, mas o outro segurou sua mão e comentou alguma coisa em voz baixa. O que estava com o celular na mão a olhou novamente, encarando-a, e disse:
- Bien, puta, vamos a tener una cerveza.
E saíram, resmungando.
“Arte sutil”, o cacete, ela repetiu por entre os dentes.
Alessa entrou no galpão e começou a caminhar pelo labirinto de contêineres. Eram muitos, todos enormes e de todos os lugares imagináveis.
Em um dos cantos mais afastados do galpão, ela encontrou o container que procurava.
Era escuro e enferrujado, mas ela conseguiu ler as palavras apagadas em vermelho.
“Moçambique”.
Ela suspirou, exausta, e jogou a guimba do cigarro no chão, apagando-a com a ponta do sapato.
Sacou um pé-de-cabra que estava ao lado, apoiado em uma das paredes, e começou a forçar o cadeado. Levou algum tempo, mas o cadeado e a corrente finalmente cederam.
Com um ruído metálico, a grande porta se abriu, revelando o fedor de detritos humanos e podridão.
Lá dentro, em meio a várias caixas de madeira, quatro corpos que já tinham sido humanos estavam espalhados.
Estavam tão apodrecidos que era quase impossível dizer se eram homens ou mulheres.
Alessa entrou no container, prendendo a respiração e se aproximou do fundo.
Lá dentro, entre as caixas e a sujeira, uma menina tremia, encolhida.
Não devia ter mais do que quinze anos, estava suja, seminua e desnutrida. Mas ainda assim, viva.
-Olhe pra mim – disse Alessa.
A menina não se moveu. Apenas tremia, em pânico.
-Olhe pra mim – disse novamente Alessa, agora em um tom mais incisivo.
A menina se mexeu devagar, assustada, e olhou para a mulher. Alessa a encarou por alguns instantes, fixamente.
Seus olhos fundos pela magreza eram de um leve tom dourado.
Alessa enfiou a mão no bolso e acendeu outro cigarro, afastando uma mecha do cabelo.
-Merda.