quarta-feira, 29 de julho de 2015

Sangue das Feiticeiras - Capítulo 3 - Ferramentas



ANTES:

-Entenda minha filha, de onde viemos. É preciso que você compreenda. Houve um tempo, antes do tempo. Só havia a escuridão. E naquela época, havia apenas os filhos das trevas. E, naquele tempo, os esquecidos precisaram de ferramentas...

HOJE:

Dois dias haviam se passado.

Alessa estava sentada no parapeito da janela. Do décimo andar ela podia ver toda a Tijuca iluminada.

Ela não tinha saído de casa nesses dois dias. De certa forma, foram duas noites tranquilas.

Mas eles estavam lá embaixo, em algum lugar. Os esquecidos.

Ali era seu lar. Seu local de poder. Em sua casa, não havia risco. Nem pra ela, nem pra Niara.

Pelo menos por enquanto.

Ela olhou para o céu, e a lua continuava cheia. Tinha certeza que o Homem de Terno Riscado a estava procurando. Quase podia sentir o seu pensamento.

Melhor assim. Enquanto estivesse focado nela, Niara estava a salvo.

A porta do quarto se abriu e a menina apareceu. Parecia incrível, mas ela tinha recuperado um pouco do peso nesses dois dias. Já não parecia um cadáver.

-Bom dia, bela adormecida – disse, sorrindo para Niara – achei que você não ia mais levantar. Quer comer alguma coisa?

A menina fez um gesto positivo com a cabeça.

Alessa preparou uma refeição para as duas e se sentou com uma xícara de café, olhando fixamente para a menina que comia, dessa vez com mais calma.

-E então? Conseguiu descansar um pouco?

Silêncio.

-Olha, Niara, eu sei o que você passou com a sua família. Sei que você está traumatizada ou alguma coisa desse tipo, mas nós temos que conversar. Você tem que começar a falar comigo.

Silêncio.

Alessa suspirou, exausta. Por quanto tempo aguentaria isso?

-Bom, se você não quer falar, eu não vou poder te ajudar – disse, enquanto se levantava e ia até a pia, ficando de costas para Niara.

-Eu só quero que você entenda...

-Quem são eles?

A voz era forte e grave, embora parecesse um pouco assustada. E o sotaque pegou Alessa desprevenida. Era estranho. E belo.

Então ela já sabia.

-Eles quem? – perguntou, disfarçando.

-Quando eu estava no contêiner. Depois que paramos. Eles estavam do lado de fora. Ficavam batendo na porta. Queriam entrar.

Alessa permaneceu em silêncio por alguns instantes.

-Não eram os homens do galpão?

A menina a encarou. Seu olhar dizia claramente que não aceitaria ser tratada como uma idiota.

-Niara...

-Eles bateram e bateram. E arranharam e gritaram. E me chamavam. Me chamavam pelo meu nome. Me diziam para sair. Para sair e...

-Para sair e brincar.

Os olhos das meninas se arregalaram e ela soltou o a xícara, trêmula.

-Eles sussurraram o seu nome. E cantavam cantigas de roda.

Niara se levantou da cadeira, em pânico. Sem tirar os olhos de Alessa, a menina começou a se afastar.

Alessa começou a se aproximar, calmamente,

-E prometeram presentes. E choraram e gemeram quando você não respondeu.

A lâmpada da cozinha piscou. E de novo. E de novo.

-Como você sabe? Quem é você? – gritou Niara, com as costas na parede, sem conseguir parar de olhar para Alessa – você é um deles?

Alessa se aproximou ainda mais da menina e, se abaixando lentamente, a olhou nos olhos.

Com um pequeno estalo, a lâmpada se apagou por completo.

No escuro, os olhos de ambas brilhavam, dourados.

-Eu não sou um deles, Niara.

A menina parou de gritar, perdida nos olhos dourados de Alessa, ofegante.

-Nós somos.

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