ANTES
Compreenda, minha filha, que nós somos poucos. Éramos muitos quando fomos criados, mas poucos de nós sobreviveram ao tempo. O tempo sempre está contra nós. Ele é o nosso grilhão, colocado pelos Criadores. E existem os outros, que não somos nós e não são os Criadores. E eles são os que andam no escuro. Eles são o Inimigo.
HOJE
Alessa estava cansada. Muito, muito cansada. Fazia quase meia hora que estava sentada de frente para a menina, em silêncio.
Quando ela ia parar de chorar, pelo amor de deus?
Ela acendeu um cigarro – o primeiro do dia – e deu uma tragada longa e barulhenta. Estava na hora de acabar com aquilo. De uma vez por todas.
Ela simplesmente não tinha mais tempo. Nenhuma delas tinha.
-Niara.
A menina pareceu não ouvir. Continuava sentada no chão, encolhida. Não tinha parado de tremer. Não tinha parado de soluçar.
-Niara.
Sem resposta. Apenas o silêncio do apartamento.
-Chega.
A menina instantaneamente parou de chorar, quase engasgando, e a olhou, surpresa.
Não havia como ignorar aquilo. Não ainda.
Alessa não costumava nem gostava de fazer isso. Forçar a sua vontade sobre outra pessoa era algo necessário, algumas vezes, mas nada agradável. A mente humana não aceitava ser compartilhada, e não era agradável pra nenhuma das duas pessoas. Nunca.
-Por que… por que os seus olhos são amarelos?
“Sério?”, pensou Alessa. “Tanta coisa pra ela me perguntar e ela quer saber por que meus olhos são dessa cor”?
Alessa suspirou.
-Eles não são amarelos. Só ficam assim quando eu uso meus poderes. Os seus também ficam.
-Poderes?
-Pelo amor de deus, menina? Será que você não entendeu nada? Estamos aqui faz dois dias. Eu estou cansada disso. Você não sabe que é uma bruxa? Não deu pra perceber?
Os olhos de Niara se arregalaram. “Finalmente”, pensou Alessa, “consegui a atenção dela”.
E sem nenhum truque.
-Preste atenção, Niara. Levante do chão e sente aqui comigo. Nós temos que conversar.
Em silêncio, Niara se levantou e se sentou na cadeira, bem na frente de Alessa.
-Olhe pra mim.
A menina olhou, obediente. Tinha olhos muito bonitos.
-Niara, eu não sei o que levou você e a sua família a sair do seu País, mas você não está segura aqui. Você não sabe o que é, não é? Seus pais nunca contaram nada?
A menina fez que não com a cabeça.
-Eu não conheci meus pais. Eles morreram um pouco depois que eu nasci. Eu fui criada pelos meus tios.
Era a maior frase que a menina tinha formulado desde que chegara ali. Já era um avanço.
-Eram eles no contêiner?
Os olhos da menina se encheram de lágrimas, mas ela conseguiu se segurar, e balançou a cabeça.
-Entendi. Sinto muito por isso.
O silêncio pairou na sala por alguns instantes. Até que foi quebrado por uma ambulância que passava na rua.
Tinha começado a chover.
-Olha, o que eu vou te contar pode parecer estranho. Mas não tem um jeito simples de explicar, sabe?
-Que eu sou uma bruxa?
-É. Uma bruxa. Uma feiticeira. Qualquer nome que você queira dar. Algumas pessoas nos chamam de “mestiços”.
-Por quê?
Alessa deu outra tragada no cigarro.
-Porque não somos totalmente bruxas. O sangue delas corre nas nossas veias. Mas um dos nossos pais era humano. No meu caso, a minha mãe.
A menina tinha ouvido em silêncio, mas Alessa conseguia sentir que ela tinha perguntas. Muitas e muitas perguntas.
-Olha, isso tem um lado bom e um lado ruim. O lado bom é que nós podemos usar esse poder, sabe. Canalizar através do nosso corpo. Podemos fazer coisas. Muitas coisas, mas isso requer treino, Niara. Muito treino.
-Eu vou… poder fazer magia?
Alessa tragou novamente o cigarro, e se lembrou de suas próprias perguntas, trinta anos atrás.
Tinha sido uma longa jornada.
E essa era sempre a primeira pergunta, a que levava ao primeiro passo. A que levava ao labirinto, e, muitas vezes, ao poço.
-Chame assim, se quiser. “Magia” é um nome tão bom quanto qualquer outro. Alguns preferem chamar de “a grande arte”, ou “a arte sutil”, ou apenas de “arte”. Outros chamas de “o poder”. Pra mim, é “magia”, pura e simplesmente. É uma bênção. E é uma maldição. Mas não tem como escapar dela. Está no nosso sangue.
Outra tragada.
-Algumas vezes você pode sentir ela fervilhando no seu sangue. Ela pode adormecer, pode se silenciar, mas está lá, esperando.
Niara ficou em silêncio por um longo tempo. Alessa sentia o cérebro da menina trabalhar. “Melhor assim”, pensou, “as perguntas criam o interesse nas respostas”.
-Foi isso que você fez? Magia? Foi assim que você me encontrou?
Ela fez um sinal positivo com a cabeça.
-Mas e aquelas coisas? Aquelas que estavam do lado de fora?
Alessa suspirou e tragou mais uma vez o cigarro. Era hora de contar. A hora das bruxas.
Antes que fosse tarde e ela descobrisse por si só.
-Aquilo é o lado ruim.

Nenhum comentário:
Postar um comentário