quarta-feira, 29 de julho de 2015

Sangue das Feiticeiras - Capítulo 4 - Aqueles que andam conosco



ANTES

Compreenda, minha filha, que nós somos poucos. Éramos muitos quando fomos criados, mas poucos de nós sobreviveram ao tempo. O tempo sempre está contra nós. Ele é o nosso grilhão, colocado pelos Criadores. E existem os outros, que não somos nós e não são os Criadores. E eles são os que andam no escuro. Eles são o Inimigo.

HOJE

Alessa estava cansada. Muito, muito cansada. Fazia quase meia hora que estava sentada de frente para a menina, em silêncio.

Quando ela ia parar de chorar, pelo amor de deus?

Ela acendeu um cigarro – o primeiro do dia – e deu uma tragada longa e barulhenta. Estava na hora de acabar com aquilo. De uma vez por todas.

Ela simplesmente não tinha mais tempo. Nenhuma delas tinha.

-Niara.

A menina pareceu não ouvir. Continuava sentada no chão, encolhida. Não tinha parado de tremer. Não tinha parado de soluçar.

-Niara.

Sem resposta. Apenas o silêncio do apartamento.

-Chega.

A menina instantaneamente parou de chorar, quase engasgando, e a olhou, surpresa.

Não havia como ignorar aquilo. Não ainda.

Alessa não costumava nem gostava de fazer isso. Forçar a sua vontade sobre outra pessoa era algo necessário, algumas vezes, mas nada agradável. A mente humana não aceitava ser compartilhada, e não era agradável pra nenhuma das duas pessoas. Nunca.

-Por que… por que os seus olhos são amarelos?

“Sério?”, pensou Alessa. “Tanta coisa pra ela me perguntar e ela quer saber por que meus olhos são dessa cor”?

Alessa suspirou.

-Eles não são amarelos. Só ficam assim quando eu uso meus poderes. Os seus também ficam.

-Poderes?

-Pelo amor de deus, menina? Será que você não entendeu nada? Estamos aqui faz dois dias. Eu estou cansada disso. Você não sabe que é uma bruxa? Não deu pra perceber?

Os olhos de Niara se arregalaram. “Finalmente”, pensou Alessa, “consegui a atenção dela”.

E sem nenhum truque.

-Preste atenção, Niara. Levante do chão e sente aqui comigo. Nós temos que conversar.

Em silêncio, Niara se levantou e se sentou na cadeira, bem na frente de Alessa.

-Olhe pra mim.

A menina olhou, obediente. Tinha olhos muito bonitos.

-Niara, eu não sei o que levou você e a sua família a sair do seu País, mas você não está segura aqui. Você não sabe o que é, não é? Seus pais nunca contaram nada?

A menina fez que não com a cabeça.

-Eu não conheci meus pais. Eles morreram um pouco depois que eu nasci. Eu fui criada pelos meus tios.

Era a maior frase que a menina tinha formulado desde que chegara ali. Já era um avanço.

-Eram eles no contêiner?

Os olhos da menina se encheram de lágrimas, mas ela conseguiu se segurar, e balançou a cabeça.

-Entendi. Sinto muito por isso.

O silêncio pairou na sala por alguns instantes. Até que foi quebrado por uma ambulância que passava na rua.

Tinha começado a chover.

-Olha, o que eu vou te contar pode parecer estranho. Mas não tem um jeito simples de explicar, sabe?

-Que eu sou uma bruxa?

-É. Uma bruxa. Uma feiticeira. Qualquer nome que você queira dar. Algumas pessoas nos chamam de “mestiços”.

-Por quê?

Alessa deu outra tragada no cigarro.

-Porque não somos totalmente bruxas. O sangue delas corre nas nossas veias. Mas um dos nossos pais era humano. No meu caso, a minha mãe.

A menina tinha ouvido em silêncio, mas Alessa conseguia sentir que ela tinha perguntas. Muitas e muitas perguntas.

-Olha, isso tem um lado bom e um lado ruim. O lado bom é que nós podemos usar esse poder, sabe. Canalizar através do nosso corpo. Podemos fazer coisas. Muitas coisas, mas isso requer treino, Niara. Muito treino.

-Eu vou… poder fazer magia?

Alessa tragou novamente o cigarro, e se lembrou de suas próprias perguntas, trinta anos atrás.

Tinha sido uma longa jornada.

E essa era sempre a primeira pergunta, a que levava ao primeiro passo. A que levava ao labirinto, e, muitas vezes, ao poço.

-Chame assim, se quiser. “Magia” é um nome tão bom quanto qualquer outro. Alguns preferem chamar de “a grande arte”, ou “a arte sutil”, ou apenas de “arte”. Outros chamas de “o poder”. Pra mim, é “magia”, pura e simplesmente. É uma bênção. E é uma maldição. Mas não tem como escapar dela. Está no nosso sangue.

Outra tragada.

-Algumas vezes você pode sentir ela fervilhando no seu sangue. Ela pode adormecer, pode se silenciar, mas está lá, esperando.

Niara ficou em silêncio por um longo tempo. Alessa sentia o cérebro da menina trabalhar. “Melhor assim”, pensou, “as perguntas criam o interesse nas respostas”.

-Foi isso que você fez? Magia? Foi assim que você me encontrou?

Ela fez um sinal positivo com a cabeça.

-Mas e aquelas coisas? Aquelas que estavam do lado de fora?

Alessa suspirou e tragou mais uma vez o cigarro. Era hora de contar. A hora das bruxas.

Antes que fosse tarde e ela descobrisse por si só.

-Aquilo é o lado ruim.

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