quarta-feira, 29 de julho de 2015

Sangue das Feiticeiras - Capítulo 5 - Visitas Noturnas



O homem de terno riscado acordou no instante exato em que o sol se pôs.

Não que ele estivesse vendo isso. O quarto onde dormia era totalmente lacrado, sem nenhuma espécie de iluminação.

Mas depois de tantos anos, a prática tinha levado à perfeição.

Ele ergueu lentamente o corpo totalmente nu – todos os seus movimentos eram lentos – e caminhou na escuridão até a pesada porta de metal do quarto, empurrando-a sem nenhuma dificuldade, apesar do peso e da espessura do aço.

Depois de subir a escada em caracol, ele se encontrou na sala de estar da sua casa. Ao contrário do que se poderia imaginar, o homem de terno riscado não vivia em mansões suntuosas – como os escritores costumam afirmar quando escrevem sobre a sua espécie – nem possuía nenhum tipo de proteção ou segurança no lugar onde morava.

Para quê? O que poderia ameaça-lo?

Ele seguiu até um dos quartos e escolheu um dos ternos. Todos idênticos. Todos muito bem cortados. Ele tinha muitos. Ternos demais.

Do lado de fora, a lua brilhava no céu. Os dias do homem de terno riscado sempre eram noites.

Ele saiu pela varanda da casa e ficou observando a rua. Sua casa ficava em Santa Tereza, e da grande varanda ele podia observar todo o movimento no centro da cidade.

As pessoas iam e vinham, vivendo suas vidas. Ele as olhava e via suas histórias. Eram tantas.

Observando as pessoas, ele percebeu o quanto estava cansado. Por um momento, a vida delas perdeu o fascínio, e ele se sentiu... velho.

Então essa era a sensação.

Muitos e muitos séculos atrás, o homem de terno riscado tinha visto o primeiro de sua espécie cometer suicídio.

Na época ele tinha ficado assustado. É claro que tinha visto muitos humanos abandonarem a vida por conta própria. Mas eles tinham uma vida curta, incompleta. A sua espécie, contudo...

Ao longo dos anos, ele soube de muitos outros. Muitos dos seus irmãos se cansavam e, entediados, partiam para o que quer que viesse depois. Suas vidas eternas desprovidas de sentido terminadas em instantes, como uma vela que se apaga.

Isso seria algo impensável antes da invasão.

Por quê eles faziam isso?

Em todos os seus anos de existência, o homem de terno riscado nunca tinha sentido o vazio que seus irmãos e irmãs descreviam. Sempre havia algo a fazer. Guerras a travar. Planos a elaborar. Ele tinha tempo. Todo o tempo do mundo.

Até aquela noite. Trinta anos atrás. Quando ele tinha sentido o vazio pela primeira vez. A noite em que ele se foi.

Ele olhou novamente o céu. As estrelas brilhavam e ele tinha certeza que não choveria mais. Não naquela noite.

Ele suspirou fundo, sentindo os odores da cidade. Sua cidade. Seu mundo.

E então ele sentiu o cheiro dela. Tão forte que, por um instante, teve certeza que ela estava ali, ao seu lado.

Mas isso seria impossível. Fazia dias que ela estava escondida. Inalcançável. Trancada atrás dos seus feitiços e sigilos, em seu local de poder. Invisível aos olhos dele.

Então por que ela estaria ali? Por que se arriscaria a sair de casa? Era um momento ruim, ambos sabiam. Uma época ruim para os mestiços.

Então ele a viu.

Ela estava parada, de pé, do outro lado da rua. Seus longos cabelos castanho-avermelhados estavam presos em uma grande trança jogada por cima do ombro. Ela vestia calças jeans e uma camisa branca amarrotada, e um casaco cinza por cima.

Ele não pôde deixar de observar o desenho do seu corpo. O rosto parecia cansado – como sempre – mas seus olhos esverdeados continuavam bonitos e brilhantes, e o seu nariz, um pouco grande a aquilino sempre passavam uma sensação de seriedade e força.

Ela não sorria. Ela raramente sorria.

Ele focou seu olhar no corpo, ainda belo e com várias curvas por debaixo da roupa, sentindo um arrepio de prazer ao ver que os pelos da nuca dela estavam arrepiados com o seu olhar.

O que havia em Alessa que despertava seu interesse? Nenhum outro humano – homem ou mulher – jamais havia atraído sua atenção, mas havia algo naquela mulher que o atraía. Desde sempre.

Talvez fosse o seu cheiro.

Ele se aproximou do portão e abriu a antiga grade de ferro. Do outro lado da rua, ela acendeu um cigarro.

-Olá, minha fada – ele disse com sua voz, que mais parecia um sussurro – essa é uma grata surpresa.

Um ser humano inferior não teria resistido à sua voz. Mas Alessa estava longe de ser uma mulher comum.

Mas havia algo errado.

Era o seu olhar.

-Aconteceu alguma coisa?

Tarde demais, o homem de terno riscado percebeu que não estavam sozinhos.

Alessa deu mais uma longa tragada no cigarro e soltou um anel de fumaça. Então, com um sussurro, disse:

-Niara...

Uma mulher. Não, uma menina, saiu de trás de um carro. Era magra e pequena. E sua pele era negra. Tão negra quanto as sombras.

E seus olhos eram dourados.

A menina parou à sua frente. Seu olhar vidrado. Ele teve a impressão que ela rosnava. Como um animal.

Alessa sorriu, e, na rua escura, seus olhos brilharam enquanto ela sussurrava:

-...pega.

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