ANTES:
Saiba, minha filha, que a primeira regra que você deve aprender, é a tríade. Toda as coisas vêm em três. O pai, o filho e o espírito santo. As três faces da lua. As três senhoras do destino. Tudo, minha filha, segue essa regra. E essa regra provém dela, nossa mãe, Hecate. Aquela que nos abençoa quando o sol se vai.
O número três tem poder, minha filha, e você o verá diversas vezes. Mas compreenda, Alessa, que tudo tem uma face na luz e uma nas trevas. E que o três pode ser um número abençoado ou maldito, pois a Senhora é caprichosa, e tanto se apresenta como as Bondosas, quanto como as Fúrias.
E entenda, minha filha, que um dia você caminhará sob ela, e você será uma tríade. E juntas vocês andarão sob a estrada da Lua. Você e suas companheiras. E serão uma só.
HOJE:
O enterro tinha sido discreto. As poucas pessoas da família que foram convidadas não tinham comparecido.
Apenas a mãe, o pai e os dois irmãos. E um padre. Ninguém mais.
Eles tinham tentado ir. Mas a família tinha vetado. É claro. Quem não faria isso?
O rapaz se sentou sobre um túmulo de mármore. A pedra era gelada, mas era melhor do que ficar em pé. Ele se chamava Gabriel – como o arcanjo – e tinha apenas dezenove anos.
A chuva tinha parado. O cemitério tinha ficado encharcado, e algumas partes estavam cobertas de lama.
-Achei – chamou a voz da menina, vinda de trás de um mausoléu – é essa aqui.
O rapaz se levantou e caminhou até a menina. Seus passos eram lentos e hesitantes. Ele não queria estar ali.
Pela primeira vez naquela noite, ele percebeu que estava frio, e, fechando o casaco, olhou para a lua crescente no céu.
A menina estava parada de pé. Tinha mais ou menos a mesma idade dele. Era loura, muito loura, com o cabelo comprido e liso preso em uma trança. Gabriel a achava muito magra, mas sua irmã nunca concordava com ele.
-Gabriele – ele chamou, hesitante – tem certeza que quer fazer isso?
A menina se virou e o encarou com seus enormes olhos azuis. Os olhos da irmã sempre fizeram com que Gabriel sentisse um frio na espinha, mas agora, com a grande cicatriz que ia do olho esquerdo até o pescoço, a sensação era muito pior.
-A gente não precisa fazer isso, Gabi – ele disse – já faz tanto tempo…
-Seis meses e oito dias – a menina respondeu, com uma voz afiada e fria ao mesmo tempo – ou sou só eu que estou contando?
O rapaz balançou a cabeça em sinal negativo. Estava com medo. E cansado. E frustrado.
Sentia falta dela.
-Escute, Gabriel – continuou a irmã – eu vou ficar aqui. Você pode ir embora, mas eu vou ficar aqui e conversar com ela.
Novamente aquela história.
-Gabi, você não precisa ficar aqui pra ela ouvir o que você tem a dizer. Ela não está aí. Isso é só uma casca vazia…
-Não me interessa – disse a menina, a voz embargada pelas lágrimas – eu preciso conversar com ela. Tenho que explicar. Pedir desculpas…
Gabriel suspirou fundo. No íntimo, entendia a irmã.
-Tá. Tudo bem. Eu vou ficar aqui. Vou esperar. Mas não demora.
A menina loira fez um sinal positivo com a cabeça e se virou pra lápide.
Era um túmulo de mármore escuro. Liso. Em cima havia apenas uma foto dela, sorrindo, jovial, imortalizada aos vinte anos. Subitamente, Gabriela se recordou da tarde em que tinham tirado aquela foto.
Tinham viajado pra Búzios. Estavam de férias e tinham viajado por uma semana. A faculdade tinha começado naquele ano, e fazia tempo que não faziam nada juntos. Era bom estarem reunidos assim. Como nos “velhos tempos”, ela tinha dito.
Como podem haver velhos tempos, quando você tem apenas vinte anos?
Mas ela estava lá, na foto, seu lindo sorriso branco emoldurado pela pele bronzeada de sol. Gabriele já tinha se esquecido como os olhos dela eram de um tom verde tão bonito.
-Nat… oi… - ela disse, sua voz não mais do que um sussurro – sou eu, a Gabi. Eu vim te visitar.
Silêncio.
-Eu queria ter vindo antes. Queria ter vindo no enterro. Mas seus pais não deixaram. Eles… eles acham que a culpa foi nossa. Minha e do meu irmão. Ele também tá ali, mas acho… acho que não quer conversar. Você sabe como ele é.
Silêncio. Ela teve certeza que seu irmão podia ouvir seus soluços de onde estava.
-Merda, Nat. Por que você fez isso? Cara, por quê? Por que você foi aceitar encher a cara com a gente? Você sempre foi a mais certinha Nat. Por que você foi me dar ouvidos, caralho? Estava tudo tão bem.
Uma nuvem silenciosa passou, cobrindo a lua. A menina se sentiu idiota. Afinal, o que estava fazendo ali? Aquilo era só um túmulo.
-Porra. A gente tava tão bem. Tinha a faculdade. As coisas estavam bem, né? Por que a gente encheu tanto a cara? Por que isso Nat? Olha no que deu… eu não enxergo mais desse olho. Os médicos disseram que não tem mais jeito. O Gabriel tá fazendo tratamento até hoje… cara, e você… você … porra.
Estava escuro. A nuvem continuava cobrindo a lua.
Longe, o rapaz continuava sentado na lápide. Não tinha chorado mais. Estava de saco cheio de ficar chorando. Era uma dor horrível. Não por causa da batida do carro, mas a falta que Natasha fazia.
Ele mal se lembrava do acidente. Os três tinham bebido a noite toda. Muito mais do que estavam acostumados. Ele tinha cheirado um pouco também. Todos eles tinham. Ele não costumava fazer isso, mas Nat tinha trazido e… e eram as últimas férias que teriam juntos antes de… bom, antes de virarem adultos.
Depois de rodarem a cidade inteira até quase o nascer do sol, tinham pego o carro e Nat tinha acelerado pela estrada. Ela tinha gritado alguma coisa. Alguma coisa sobre alcançar o sol…
E então ele acordou dois dias depois num quarto de hospital. Um braço e algumas costelas quebradas. Sua irmã cega de um olho e com alguns ossos partidos. E Nat estava sendo enterrada.
E nos últimos seis meses, nada mais tinha sido como antes. Nada tinha sido como nos velhos tempos.
Ele olhou pro céu. Não havia mais lua. Não era uma nuvem. Não era lua nova. Apenas não havia mais lua.
Gabriele tinha parado de chorar. Assim como o irmão, ela estava cansada.
No fundo, sabia que nunca se livraria daquele vazio. Ela sabia que nunca mais a veria. Que nunca mais ouviria sua voz. Nat tinha partido. Para o céu, para o paraíso, ou pra onde quer que as pessoas vão quando morrem em um acidente de carro.
Estava tão frio ali…
Então Gabriele ouviu.
No início era o silêncio. E apenas o silêncio. Mas então ela ouviu o som. Pareceu tão alto… como se algo a tivesse acertado no ouvido.
Uma batida. Forte e sonora.
Ela pôde ouvir a voz do irmão, que chamava o seu nome. Ela não soube ao certo quando começou a cavar, mas quando Gabriel a alcançou, seus dedos sujos de lama já tinham tocado a madeira do caixão.
Ela sentiu as mão fortes do irmão, que a segurava, aos berros.
-Você não tá entendendo… ela tá viva. Eu ouvi um barulho. Ela tá lá dentro. Tá viva.
O irmão a puxou e a segurou. Os dois caíram ajoelhados na lama, sob a fina chuva que recomeçava.
Gabriela soluçava. Ele somente podia abraçá-la.
-Ela tá viva… eu ouvi… eu juro…
-Shhhh… calma. É a sua imaginação.
-Não… é verdade… eu juro…
-Gabi… eu….
Silêncio.
A noite estava escura como o breu, quando o rapaz se levantou e puxou a irmã. A chuva tinha aumentado, mas ele não ouvia o som da água sobre as lápides.
Em meio ao cemitério, ele puxou Gabriele de volta ao túmulo. E, juntos, se ajoelharam.
Ali, juntos, ele fitou os grandes olhos azuis da irmã, e com um sussurro, disse:
-Eu também ouvi. Ela está viva. Me ajude a cavar.

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