quarta-feira, 29 de julho de 2015

Sangue das Feiticeiras - Capítulo 7 - The Long Way Back



Ela não tinha dito nenhuma palavra.

Gabriele a olhava com seu único olho bom. Estava sentada numa cadeira de madeira a menos de dois metros dela, e ainda não acreditava.

Seu irmão, Gabriel, estava de pé do outro lado do quarto, encostado na parede. Também estava em silêncio. Sua roupa estava suja de lama e ele estava molhado. Parecia assustado.

Mas ela não tinha dito nenhuma palavra.

Gabriele puxou a cadeira um pouco pra frente e se aproximou da cama. Ela podia sentir o cheiro da amiga. Gabi usava sempre o mesmo perfume, mas havia algo mais. O suor, o cabelo, o medo.

Ela fechou os olhos por alguns instantes, e percebeu que podia ouvir os batimentos dos corações dos dois. E havia um ruído também. Um som contínuo, como se fosse um rio enorme que corria sem parar. Mas ela não sabia o que era.

-Nat... – disse Gabriele, e a sua voz soou doce e reconfortante depois de tanto tempo – você tá me ouvindo?

Natasha não respondeu. Não conseguia responder. Estava sentada na cama, encolhida, os braços abraçando os joelhos com força. E tremia.

Ela nunca tinha sentido tanto frio. Não era uma sensação térmica em si, mas algo mais profundo. Quase como um vazio. E ela podia senti-lo nos ossos.

Ela passou a mão nos cabelos e sentiu a lama. Estava imunda. Coberta de lama e folhas dos pés à cabeça. Por que não tinha tomado um banho? Quanto tempo fazia que tinha acordado? Uma hora? Duas? Dois dias?

-Nat... – continuou Gabriele – Nat. Fala alguma coisa.

O que ela poderia dizer? Como poderia explicar?

Quem acreditaria no que ela tinha pra contar?

-Gabi – a voz de Gabriel soou como uma explosão e fez seus ouvidos doerem – ela tá tremendo de frio. Por que você não dá um banho nela? Coloca ela na banheira e liga a água quente.

A menina loira concordou com um movimento da cabeça. Isso era tão característico dela, pensou Nat. E, por um momento, achou que poderia sorrir.

Mas não.

Ela pôde ouvir o som de água no banheiro, e mesmo do quarto, foi capaz de sentir o calor. Era reconfortante. Quase tanto quanto a voz da amiga.

Gabriel se aproximou dela e a ergueu no ar. Seus braços eram fortes e ela sentiu seus músculos se retesarem ao contato dos dois corpos. Ela se lembrava bem do cheiro dele. Lembrava do gosto do seu suor e da sua saliva. E sentiu que não eram apenas os músculos dele que se retesavam ao contato com ela.

Ele a carregou com facilidade até o banheiro e a colocou sentada no vaso.

-Gabi, dá um banho nela – disse, e saiu silenciosamente do banheiro, fechando a porta.

As duas ficaram paradas em silêncio, e então, com delicadeza, Gabriele começou a tirar a roupa da amiga. Natasha permaneceu parada, sem oferecer resistência. Estava cansada, cansada demais.

Gabriele despiu a amiga e a encaminhou até a banheira quente, colocando-a sentada. O corpo de Nat continuava exatamente como ela se lembrava. A pele morena e magra. Os lindos olhos verdes. Natasha nunca tinha sido rica em curvas, mas Gabriele nunca tinha conseguido deixar olhar como seu corpo era desenhado.

Lindo – ela pensou – lindo como sempre.

Ela começou a esfregar o corpo da amiga com uma esponja, limpando toda a lama. Nat permanecia impassível, e Gabriele se lembrou de uma noite, anos atrás, quando suas mãos percorreram aquele corpo pela primeira vez, mas tentou afastar a lembrança. Não era hora pra isso.

A menina não pareceu notar, e permaneceu quieta, estática, enquanto se deixava ensaboar. No fundo, Nat também se lembrava daquela noite, mas estava exausta demais pra falar qualquer coisa.

A subida tinha sido longa e lenta. Ela se lembrava de cada passo em uma longa escada de pedra negra em espiral. Subindo, sempre subindo. Ela subia sem olhar pra baixo. De alguma forma, ela sabia que havia algo que subia atrás dela. Não sabia se a coisa a seguia ou a perseguia.

Mas podia ouvir a sua respiração. O cheiro do seu hálito. A coisa subia, e estava faminta.

E ela subiu, sem olhar pra trás.

A escada era longa, e muitas vezes ela achou que não havia fim. Ela estava no inferno, e subir as escadarias era o seu castigo. Eternamente.

Ela sentiu fome e sede. E dores nas pernas devido ao esforço. E cãibras. Mas nunca parou. Por pior que fossem as dores, ela tinha certeza que o que estava atrás dela era muito pior.

Então a escadaria terminou. Quando seus pés descalços sangravam e estouravam em bolhas, ela finalmente chegou ao fim. Não havia mais nenhum degrau, e sim uma montanha.

Ela hesitou por um instante, mas sentiu a coisa nos seus calcanhares. Negra e faminta. Cheia de desejo e cheia de ódio.

E ela escalou, pedra por pedra. Até seus dedos sangrarem e os pedaços das suas unhas ficarem encravadas na rocha cinza. Subiu e subiu, com a coisa em seu encalço. Não havia nada acima, e ela tinha certeza que não havia nada abaixo.

Ela tinha achado que a escadaria era longa, mas a escalada foi muito maior. Todas as vezes que seus músculos falharam, ela sentiu a coisa resvalar os seus pés, e, tomada pelo pânico, ela prosseguiu.

E subiu até que, subitamente, ouviu vozes. Pareciam conhecidas, mas distantes. Vozes que ela não ouvia há muito tempo.

Ela continuou, até que, com um enorme clarão, ela viu uma saída.

Ela esticou o braço e sentiu punhos firmes tocarem seus pulsos. E foi erguida com força.

E então ela estava ali. Sentada na banheira. Tremendo de frio mesmo sob a água quente.

Seus amigos tinham feito muitas perguntas, mas ela não havia respondido nenhuma.

Não tinha coragem de dizer nada. Porque ela sabia. E não havia como explicar. Era apenas uma sensação, no fundo dos seus olhos.

Quando saiu, a coisa saiu com ela.

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