ANTES...
Alessa e Niara estavam de pé no telhado do prédio.
Aquele era o edifício mais alto da Tijuca e, assim, Alessa podia praticar com privacidade. Alguns feitiços não eram seguros ou não podiam ser realizados entre quatro paredes, e, ali, sob o céu noturno, ela podia se soltar.
No seu mundo, a liberdade era um bem raro.
Essa situação sempre a fazia rir. Seu pai dizia que os magos e as bruxas praticavam seus feitiços à noite, sob a lua, em meio a bosques e florestas. Protegidos pela natureza e pelos seres da floresta, que, de certa forma, eram seus irmãos.
Talvez isso fosse verdade. Mas ela não era uma bruxa. Não completamente, era? Pisar numa floresta à noite apenas atrairia os inimigos. E Niara ainda não estava pronta. Ainda não.
Uma vez Alessa tentara fazer isso. Tinha vinte e poucos anos e gostava de se arriscar um pouco mais. Ela tinha ido até a floresta da Tijuca numa noite de lua cheia e tentara preparar um ritual. Um ritual simples, uma mera invocação para um amuleto.
A diferença tinha sido inacreditável. Ela tinha sentido sua mente vagar pela mata, sentido as folhas vibrarem com a brisa. O amuleto vibrava dentro do círculo, e ela sentia o fogo vivo que queimava na sua barriga.
Era a comunhão. Tão plena. Tão prazerosa. Quase um êxtase. Ela nunca tinha se sentido assim. Nem quando ia pra cama com os homens que escolhia. A não ser quando estava com Ele.
Ela havia ficado sentada na clareira em posição de lótus por uma eternidade. A luz prateada da mãe lua banhava seu corpo nu e ela sentia a poeira das estrelas entrando em seus pulmões. Sua kundalini queimou e queimou, subindo pela sua coluna.
Sua magia a preenchia, fervendo o sangue em suas veias. Era a hora.
A hora das bruxas.
Então eles vieram. Eles a tinham farejado de longe. E ela escapou por muito pouco.
O resultado estava marcado na sua perna, na forma de uma cicatriz de vinte centímetros. Ela quase não tinha escapado naquela noite. A vida não era fácil quando você era um mestiço.
E as suas antepassadas ainda reclamavam da inquisição.
Então ela havia construído aquele terraço. Não tinha sido tão difícil. Era um amplo espaço aberto de concreto. Ela tinha feito o círculo sagrado em todo o telhado, o que impedia que os inimigos a sentissem. Impedia que o Homem de Terno Riscado a encontrasse também. Para o bem ou para o mal.
Ou para os seus desejos.
E tinha colocado sigilos na porta de acesso. Nisso ela tinha sido brilhante, era obrigada a reconhecer. Todo aquele que se aproximasse da porta sem a chave mágica esquecia imediatamente o que estava indo fazer ali. Até agora, nenhuma tinha falhado.
E assim ela podia treinar. E hoje a noite ela tinha ensinado a chave para Niara. Afinal, se a menina seria sua discípula, era hora de aprender alguns segredos.
A menina estava de pé na amurada, olhando a cidade. Seu olhar parecia perdido no horizonte.
-O que foi?
-Essa cidade é tão grande...
Alessa ficou parada ao lado dela e acendeu um cigarro. A menina já estava com ela a duas semanas. Parecia recuperada, embora fosse possível perceber que ainda estava assustada, e embora acordasse gritando algumas noites.
Mas ela parecia recuperada. E não havia mais tempo. Niara precisava ser treinada, a menos que quisesse ficar trancada no apartamento para sempre.
-É uma cidade enorme, Niara. E cada esquina dela quer te matar. Por isso hoje eu vou começar o seu treinamento. Estudar durante o dia. Praticar durante a noite.
A menina a encarou com seus belos olhos, em silêncio.
-Sente-se.
As duas se sentaram no chão, em silêncio, encarando uma a outra. O vento noturno soprava os longos cabelos de Alessa para o lado, mas ela não parecia se importar.
-Escute bem, Niara, porque eu não vou repetir. Hoje eu vou aceita-la como minha discípula. Você sabe o que isso significa?
Silêncio.
-Já é um bom começo. Sempre que você não souber algo, admita, nem que seja ficando em silêncio. Você será minha discípula e eu serei a sua mestra. Você me obedecerá e eu lhe passarei devoirs. Você aprenderá e eu ensinarei. Mas antes, precisamos de sangue.
Os olhos da menina se arregalaram.
-Precisamos de sangue, Niara. E precisamos pra já. A Lua está no ponto certo e precisamos realizar o ritual.
-O meu ou o seu? – perguntou a menina, trêmula.
Alessa deu a última tragada no cigarro. Era hora.
-Do seu, do meu e do meu mestre. Quando um mestre está morto, o discípulo se torna o mestre. Mas o meu mestre está vivo. E precisamos da benção dele. Mas ele é um homem perigoso, e eu preciso ensiná-la a se defender antes de o encontrarmos. E só temos dois dias.
A menina pareceu confusa.
-Mas... eu pensei que seu pai tinha sido o seu mestre. Você me falou que ele tinha morrido.
Alessa apagou o cigarro no chão. Por um instante sentiu o peso da sua idade.
-Meu pai está morto, Niara, mas ele não era o meu mestre.
-Não? Então quem era?
Ela se levantou e esticou a mão para e menina.
-Levante-se, está na hora de visitarmos o Homem de Terno Riscado.

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