A noite tinha caído rapidamente.
O homem de terno riscado estava de pé sobre a cobertura do edifício do Jockey Clube, no Centro da Cidade. Era uma noite clara, com poucas nuvens. E a enorme lua cheia brilhava com tanta intensidade que, por um segundo, ele a achou bela.
Estava quente, mas ele nem mesmo suava. De onde ele viera era muito, muito mais quente. E já fazia muito tempo desde que tinha suado pela última vez.
De cima do edifício era possível ver toda a Baía de Guanabara, desde sua margem na Praça XV até sua outra ponta, onde pequenas luzes brilhavam. O mar parecia tão plácido à noite, quase morto.
Já a cidade, por sua vez, estava viva. Sempre estava viva. Ele olhou para baixo e viu as pessoas que caminhavam à noite: ali um homem de negócios bebendo algo, do outro lado uma mãe de família que desejava retornar pra casa. Em outra ponta, uma prostituta conversava com um rapaz, jovem demais para ela.
Ele gostava de observá-las. As pessoas. Seu antigo sonho tornado realidade. Mas essa era uma outra história.
E havia os mendigos. Os sem-nome. Esses eram os seus favoritos. Aqueles que não tinham importância.
Mas, pensou ele, alguém tinha importância?
Ele riu consigo mesmo. Muito tempo atrás, ele tinha cometido esse mesmo erro. Era uma época diferente então, mas as palavras tinham sido as mesmas: “eles têm alguma importância”?
Como ele tinha se arrependido de tê-las pronunciado… Se ele soubesse o resultado dos seus planos naquela época, nunca as teria dito.
Na verdade, nunca teria feito seus planos.
Mas agora era tarde. Tarde demais, Ele e seu povo tinham sido testados, avaliados e considerados inaptos. Agora, tudo que podiam fazer era esperar. Esperar pelo fim, pela escuridão. Pelo momento em que não haveria mais nada.
E então estariam livres. Como antes. Como quando não havia tempo. Quando tudo era a Treva.
Ele olhou novamente a lua. Seu brilho era tão intenso que feria seus olhos.
Como ele detestava aquela luz.
Com um movimento lento (e todos os seus movimentos eram lentos), ele olhou novamente pra baixo.
Onde ela estava?
O homem respirou fundo e sentiu os odores da cidade. Eram muitos. Tantos que alguém menos treinado não seria capaz de distingui-los. Mas ele se concentrou, e, em pouco tempo, o cheiro de cigarro alcançou suas narinas. O cheiro do cigarro, e dela.
Ele se virou para o norte, e apertou a vista.
Onde ela estava?
Ele focou um pouco mais a vista, aguçando seu olhar.
Seus olhos atravessavam pedra e vidro, metal e carne.
Onde ela estava?
Ele se concentrou mais um pouco. Quase chegando ao seu limite. Ela estava ali, mas onde? Ele sentia seu cheiro, sentia seus pensamentos. Ela era sua, não era? Sua cria, sua criação.
Sua criatura.
Então ele a encontrou.
Ela saía de um prédio, muito ao norte da cidade. Estava suada, cansada, e fumava um cigarro atrás do outro. Estava exausta e frustrada. E era tudo que ele desejava.
Ele Podia vê-la. Podia ouvi-la. Por um momento, quase podia tocá-la agora.
Ela era sua, e estava logo ali.
Do outro lado da cidade, Alessa olhou para o céu e para a lua.
Em algum lugar, ela sabia, ele a observava.
Ela acendeu mais um cigarro, com calma, e, depois de guardar o isqueiro, mostrou o dedo médio para lugar nenhum.
No fundo, esperava que o vampiro estivesse olhando.

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